Coaching Interno ou Coaching Externo: um dilema?
Coaching Interno ou Coaching Externo: um dilema?
28/06/2018
Assessment, Instrumentos & Coaching Executivo
Assessment, Instrumentos & Coaching Executivo
09/07/2018
Exibir tudo

Vinculação: Uma dinâmica que se estabelece e gera sustentabilidade ao processo de Coaching

Vinculação: Uma dinâmica que se estabelece e gera sustentabilidade ao processo de Coaching

Por Simone Chaiben Furini

“Um relacionamento bem sucedido é sempre uma história de transformação.”
(Robert Hargrove)

Minha expectativa neste artigo é poder conversar sobre questões que podem colaborar para a sustentabilidade do processo de Coaching. Focar na possibilidade da criação do vínculo no processo e o estabelecimento de uma aliança sustentada pelo respeito e confiança.

Quando um novo processo inicia, variadas são as necessidades e expectativas. Estamos, neste momento, inseridos em uma intensa complexidade que diz respeito à vida do Coachee.

Clarear objetivos não é algo fácil, uma vez que tudo parece importante e necessário ser trabalhado. Mas como lidar com as expectativas de cada novo começo para o Coach e para o Coachee?

Conseguir estar presente “no aqui e agora” criando uma conexão que se estabelece de ambas as partes, torna possível a caminhada em busca dos objetivos do Coachee. Propiciar um ambiente protegido e seguro, onde este possa partilhar suas ansiedades, frustrações, aspirações é uma das formas de colaborar com o processo de vinculação. Para pensar sobre esse momento do processo, recorro a Winnicott, e em suas considerações teóricas sobre criar um estado afetivo especial e consistente que possibilite um ¨ ambiente suficientemente bom ¨ que colabore no crescimento e desenvolvimento do cliente. Para o autor, há, em todo ser humano, uma tendência à integração, ao amadurecimento e este só não se efetivará caso não encontre, no ambiente, condições favoráveis para tal.

Acredito que o estabelecimento do que Winnicott chamou de holding (sustentar, envolver) é fundamental para que sentimentos e percepções do Coachee possam emergir e através da nossa intervenção proporcionar ao cliente novas experimentações e possibilidades.

Mas tamanha é a responsabilidade destes momentos na medida em que não estamos num processo terapêutico e não temos a condição de tratar aquilo que vem como passado. Podemos sim ajudar o Coachee a entender onde aquele passado se faz presente e o que traz de impacto em sua vida hoje.

Rosa Krauz em seu livro Coaching Executivo nos fala que o ponto mais vulnerável do processo de Coaching é a relação coach-coachee, uma vez que o desempenho de um está vinculado ao desempenho do outro e este é um processo que exige tempo, empatia, sensibilidade e flexibilidade do Coach.

Uma das situações que gostaria de abordar refere-se a uma cliente, gestora, que aqui chamo de Paula. Diretora de uma Escola referência em sua cidade, com muita experiência na área Escolar veio ao processo de Coaching com um script pronto daquilo que racionalmente queria trabalhar, usando o Coaching para potencializar sua atuação como gestora. Conta que os tempos estão mudando muito rápido e quer se manter atualizada, com um nível de empregabilidade que lhe auxilie a se manter no trabalho atual. Entendi como uma demanda importante, mas percebi que outras questões estavam presentes. Como era o primeiro encontro procurei ouvir muito e falar pouco me colocando por inteira naquele momento. Logo pude perceber que ela se utilizava de algumas defesas para abordar suas dificuldades. Aqui então procurei, na medida do meu possível criar um ambiente seguro, com atmosfera acolhedora para que pudesse contribuir no processo de abertura.

Paula traz com clareza sua habilidade de comunicação; o quanto é reconhecida por todos como uma pessoa apaziguadora, motivadora, competente, extremamente dedicada, que busca o conhecimento e a qualificação de forma permanente.

Acredita que sua dificuldade reside nas áreas de planejamento e gestão, mas quando fala deste assunto, logo se justifica dizendo que tudo funciona bem porque sua Vice Diretora conhece muito a respeito e segundo ela, se complementam. Peço para detalhar o funcionamento das atividades de cada uma e a forma como aparece a complementaridade entre elas. Neste momento, ela traz o quanto a Vice Diretora assume não só a área Administrativa e Financeira que é da sua atribuição, como também a área Pedagógica que pertence ao escopo da Direção Geral, papel que a Coachee desempenha.

Aos poucos foi mostrando a dificuldade de posicionar-se como gestora em especial, junto a Vice Diretora que, segundo ela, é uma pessoa extremamente competente, mas muito autoritária, controladora e rígida, enquanto ela, Paula, era vista como a Maison da Instituição. Procura não entrar em conflito, sempre buscando o consenso. Pergunto como ela se sente ao agir desta forma, ela refere que está sendo muito difícil e estressante, sente-se desvalorizada e humilhada (sic) pela colega e acha muito difícil mudar, porque sempre trabalharam assim desde que assumiram estas funções na Escola há alguns anos atrás.

Com uma postura atenta e serena,respeitei e acolhi a Coachee, entendendo que o que trazia, naquele momento, evidenciava um ponto de grande sofrimento para ela e eram questões não resolvidas na sua trajetória até então.

A partir do espaço de reflexão oportunizado, era necessário pensar o que precisava fazer para enfrentar a situação e como poderia assumir seu papel de fato e de direito, sentindo-se menos perseguida por seus medos e desaprovações internas.

Aqui novamente trago Winnicott que nos lembra de que aquele que aquele que cuida do outro está naturalmente abastecendo-se afetivamente, gerando uma experiência de mutualidade.  De fato, em alguma medida continuamos precisando de ancoragens externas facilitadoras para chegar a viver de modo mais pleno e autônomo.

Acreditei que poderia ser oportuno entendermos o que a impedia de ocupar efetivamente o papel de Diretora Geral. Ao fazer esse questionamento, ela se emociona e fala que revive a cada dia o que passou na infância, onde não podia mostrar que era capaz. Seus medos e inseguranças retornavam com a força que se encontravam no passado. Neste sentido o sofrimento parecia surgir do desenvolvimento bloqueado que interferiu em sua capacidade pessoal, trazendo para o presente,aspectos de sua vida passada referem-se a épocas mais remotas, trazendo para o presente às reedições dos modelos passados mas vividos de forma atual.

Assim na simbologia de Winnicott, entendemos o Coach como aquele que estabelece uma relação acolhedora no aqui e agora para que depois o Coachee possa enfrentar a realidade, de modo a exercer sua autonomia em contextos mais amplos e menos protegidos do lá e então.

A Coachee fez referência sobre o contexto de facilitação criado, onde a escuta ativa, o olhar atento, cuidadoso e respeitoso como fatores importantes para que ela pudesse trazer questões tão complexas e que pareciam intransponíveis.

Aos poucos conseguiu verbalizar suas emoções, iniciando um processo de elevação de consciência, criando a condição de repensar sua trajetória e agir de forma a buscar novas alternativas de ser e estar no trabalho e nas relações com os outros. Sua postura passou a ser mais assertiva conforme relatos trazidos em vários momentos posteriores, onde pôde abordar seu trabalho e sua vida de forma mais autônoma e integrativa.

Neste aspecto, a criação de um espaço de acolhimento, respeito e confiança, trouxe a possibilidade de emergirem conteúdos importantes que foram trabalhados com o foco de sua real contribuição ao trabalho como gestora, responsável pela comunidade de alunos, pais e professores, bem como junto aos seus pares no trabalho. Emergiram, desta forma, recursos internos que ela tinha e não utilizava, bem como sua autonomia e poder de decisão que passaram a compor de forma permanente seu papel de gestão.

Posso dizer com absoluta certeza que a sustentabilidade do processo de Coaching depende de vários aspectos e fatores, mas aqui trouxe a vinculação como uma das possibilidades de colaborar neste processo, possibilitando uma caminhada que traz benefícios para quem por nós procura. Neste sentido, na minha prática diária, percebo que a sustentabilidade do processo é uma via de mão dupla, onde o Coachee, de um lado traz sua vontade, abertura e disponibilidade para o novo e de outro, o Coach com sua experiência, sensibilidade e assertividade compõem o cenário para um processo exitoso e transformador.

Publicado em 29/06/2018

Simone Chaiben Furini é Psicóloga, Consultora e Coach.
simone.furini@singularmais.com.br