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Onde o Coaching e a psicanálise se encontram

Por Patrícia Marie Jasiocha

Com base nos estudos de Freud e Lacan sobre o inconsciente e nos conceitos de uma atividade que vem sendo fortemente demandada pelo campo empresarial, o coaching, este artigo pretende apontar uma via de conexão entre indivíduo e empresa através de um trabalho onde ambos são considerados.

O ponto de intersecção entre o Coaching e a Psicanálise está na combinação de dois fatores: o objetivo, como o resultado esperado pelas empresas e o subjetivo, como a motivação dos indivíduos que nelas atuam e que desde a perspectiva da psicanálise pode ser escutado pela via do inconsciente.

A palavra é a matéria – prima do processo de coaching. O coachee é convidado a colocar suas questões e inquietudes e falar livremente sobre elas. O propósito do trabalho de coaching é propício ao convite do discurso mesmo que o foco esteja voltado às suas questões profissionais, é o indivíduo por inteiro quem está lá, não há como dissociá-lo e ignorar as questões pessoais. O campo é fértil para deixar o sujeito emergir. É possível emprestar a técnica de associação livre utilizada por Freud para convidar a pessoa a falar sobre si, preservando o contexto do trabalho contratado. Fale-me sobre sua formação, conte-me como escolheu este trabalho, porque procurou um processo de coaching, o que busca ou espera deste trabalho, como é sua relação com colegas, chefes e subordinados, são perguntas que o coach pode colocar ao coachee e que permitem que o sujeito se ponha a mostra através da palavra.

Dor (1989), ao apresentar os pontos fundadores do pensamento de Lacan, diz: “…perfila-se em Freud a intuição de que um discurso diz sempre mais do que estima dizer, a começar pelo fato que pode significar algo totalmente diferente do que se encontra imediatamente enunciado”. Qualquer discurso pode trazer mais informações para quem souber escutar e interrogar aquele que fala, mesmo que este discurso seja colocado dentro de um contexto objetivo. Esta escuta mais profunda e menos aparente, com ouvidos aguçados para a subjetividade é que vai trazer para o indivíduo e para a empresa um resultado diferenciado. É comum, quando o processo é conduzido pelo coach que se serve de uma escuta analítica, que a pessoa saia das sessões construindo ou reconstruindo alguns aspectos sobre si, que até então, não tinham sido acessados. Escutar os lapsos, atos-falhos, chistes, comportamentos repetitivos, interrupções no discurso são caminhos para escutar o sujeito do inconsciente no processo de coaching. A inscrição inconsciente que determina o ato humano pode ser interrogada e as formações do inconsciente são as portas que se abrem propiciando este encontro com o sujeito, o momento de eclipse manifestado num equívoco.

Longe da pretensão de produzir uma redistribuição na economia libidinal do indivíduo, resultado que pode ser alcançado num tratamento psicanalítico, a proposta de escutar a subjetividade no processo de coaching é a de acolher o discurso, interrogar o sujeito e quem sabe produzir uma demanda além da demanda objetiva. É um convite à investigação e não à explicação. Possibilitar, através da indagação, que o coachee possa deparar-se com sua subjetividade e dar um novo sentido para seus atos, é o efeito que o coach que se utiliza de uma escuta analítica pode produzir. A partir deste ponto é bem provável que os objetivos e as ações estabelecidas no plano de trabalho no início do processo de coaching sejam concretizadas ou reajustadas. Como desobstruir um caminho bloqueado, é deixar o coachee livre para a ação.

A escuta analítica cabe bem no processo de coaching. Nos casos onde há espaço para aplicá-la seus efeitos são visíveis para o indivíduo que pode trabalhar nesta linha. No entanto, coloca para o coach a questão de como transmitir à empresa que o contratou, algo do que foi este trabalho. Outra questão relevante é o fato do coach estar preparado e convicto sobre os efeitos de uma escuta analítica. No texto “A Questão da Análise Leiga” (1926) Freud menciona, “…todo aquele que quiser praticar a análise em outras pessoas se submeta ele próprio a uma análise”. Da mesma forma, para uma intervenção analítica breve, que é o caso de um processo de coaching, o coach deve ter assimilado a experiência com a sua própria análise. Assim terá formado suas convicções que o orientarão durante o trabalho com o seu coachee.

Mensurar o benefício que uma compreensão interna traz ao profissional, o quanto isto gera de retorno para a empresa, é realmente impossível de colocar numa planilha para contabilizá-lo no balanço anual. Por outro lado, são os recursos intangíveis que geram os tangíveis. É a subjetividade que opera a favor ou contra a objetividade dos resultados esperados pelas empresas. A subjetividade é soberana. Como refutá-la? As empresas que, de fato, propiciam ambientes de trabalho menos estressantes, valorizam que as pessoas encontrem um sentido no que fazem, onde predomina a harmonia, a oportunidade de aprender e desenvolver suas potencialidades ou que estão caminhando nesta direção, tem concedido este espaço para a subjetividade e se beneficiado através de pessoas mais satisfeitas, processos mais bem estruturados que por fim sustentam resultados sólidos, sua perpetuação no mercado e a sua existência. Isto tem a ver com a posição subjetiva dos dirigentes, há aqueles que regem a orquestra e através da sua sensibilidade e preparo técnico produzem uma música harmônica, cheia de graça e beleza e há aqueles que são incapazes de compor a música, fazem barulhos e produzem sons desafinados, ambos guiados pelas inscrições do inconsciente.

Poder dar um sentido ao som ou à música produzida, é um efeito esperado a partir da escuta da subjetividade. Somos contratados como coaches para dar esta contribuição, é nossa tarefa e obrigação estarmos com ouvidos afinados.

Publicado em 18/03/2009

Referências Bibliográficas

FREUD, S. (1996). Obras psicológicas de Sigmund Freud: edição standart brasileira – volume 20, Rio de Janeiro: Imago.

KAUFMANN,P. (1996). Dicionário Enciclopédico de Psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

DOR, J. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Porto Alegre: Artes.