Maieuticando: Coaching, freeway ou trilha?
08/03/2013
RESENHA: Coaching Executivo e Empresarial
10/03/2013
Exibir tudo

O Coaching: uma abordagem humanista

Por Ana Paula Peron

Quando há liberdade para aprender o ser humano tende a mover-se no sentido da plenitude e da sua potencialidade.” – Carl Rogers (1978).

Compreendemos o Coaching como um processo no qual o Coachee é apoiado a ampliar seu olhar e, escrever sua própria história e, na medida em que amplia seu olhar, passa a ver em si o potencial para novas escolhas.

Não o julga o Coach. Aceita, acolhe e convida a uma viagem. Está com ele, ao seu lado, presente e atento, interessado e inteiro. O Coachee se apercebe disto e se tranquiliza, confia, troca e se disponibiliza. Viaja, convidado pelo Coach, e também convida este para suas viagens. São parceiros inteiros e presentes.

Nas palavras proferidas pelo professor e Coach português Tito Laneiro, (em março de 2012 em workshop em São Paulo) encontramos uma estimulante percepção: “Às vezes o que faz com que as pessoas mudem é nós não querermos que elas mudem”. Ou seja, no momento em que a pessoa se livra do peso de ser quem o outro deseja que ela seja, sente-se mais confortável e confiante para mudar e ser quem deseja ser. Assim, o caminho passa pela aceitação incondicional do outro. Parte-se do pressuposto de que o Coachee é um sábio em sua sabedoria.

Algumas primorosas perguntas de um Coach a si mesmo poderiam ser: Estou desejando ou esperando que o coachee mude? Estou acreditando que sei o que é melhor para este Coachee? Como Coach, estou disposto e aberto a mudar, eu mesmo, com esta experiência?

Uma ponderação pertinente sobre o preparo do Coach para desempenhar seu papel passa por um olhar para si mesmo. Perguntas que o levem, enquanto Ser, a compreender a si mesmo, estando inteiro na experiência única de olhar para suas próprias emoções, integrando-se em suas dimensões do conviver.

O Coach está amiúde exposto a exercitar o não julgamento, a abertura, a flexibilidade e principalmente a ampliação de sua própria consciência. É uma escolha que precisa fazer sob pena de, inadvertidamente, intervir muito além do seu papel na vida de outra pessoa.

Para o psicólogo Will Schutz (1978), “o quanto de compaixão pessoalmente sinto por você vai depender do quanto me importo com você como pessoa e de três fatores pelos quais eu o percebo: 1) você aceitar ou não responsabilizar-se por si mesmo; 2) você estar disposto a solucionar seu próprio problema; 3) você se permitir saber como resolver suas dificuldades”.

De fato, há um desafiador caminho em um processo de Coaching. Muito além de esquemas, formulários ou processos metodológicos, há a aceitação e a compreensão da complexidade humana.

Em uma sessão de Coaching, as armadilhas para o “saber” do Coach são numerosas. A cada momento, o Coach se depara com seus próprios conteúdos, seus próprios preconceitos, sua própria história. Então, como isentar-se? Como garantir que não se está levando seus próprios elementos para a história do Coachee? É possível não se misturar? Compreendemos ser fundamental que um Coach se faça tais perguntas.

Nossa experiência traz lições maravilhosas e nos convida cada vez mais a termos atenção, consciência, presença, respiração e a praticar, praticar e praticar… O aprender está no fazer!

Encontramos uma extraordinária provocação em um pensamento atribuído ao psicólogo analítico Carl Gustav Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana”. Um alento às nossas inquietações: não existe técnica ou teoria capazes de suprir as necessidades da alma humana, mais do que o encontro com outra alma humana. O que desenha o processo de Coaching é a disponibilidade para aprender a aprender e apreender sobre si mesmo.

Não faz parte do papel do Coach limitar aquilo que o Coachee tem permissão para fazer ou aprender. Em seu livro Profunda Simplicidade, Will Schutz (1989) cita Willian Blake “Se as portas da percepção fossem purificadas, tudo apareceria ao homem como é, infinito. Pois o homem se encerra, até terminar por ver todas as coisas através das estreitas frestas em sua caverna”.

Aprender a aprender, e apreender mais sobre si mesmo, seus padrões de pensamento, de ação, reconhecer-se em suas relações interpessoais e intrapessoal. Um grande desafio é o de aumentar os horizontes, tanto do ponto de vista do olhar, quanto da ação.

O Coaching é uma experiência de aprendizagem e transformação baseada no despertar de consciência, dos seus recursos e possibilidades de resposta. É um processo para a conquista de alta performance, segundo a socióloga e Coach Rosa Krausz.

Busca-se desafiar a consciência, levando-a a patamares superiores, que vão além do círculo vicioso do apagar de incêndios, do exercício cotidiano e compulsivo das ações urgentes e importantes e, de forma eficaz, concentrar mais esforços nas ações importantes da consciência, do pensar, refletir, inovar, planejar, assumindo sua responsabilidade de atuação, estabelecendo entre si e com a organização a relação de confiança necessária para que os resultados sejam alcançados.

Estima-se que, de todo o nosso conhecimento de hoje, aproximadamente 80% será renovado em poucos anos e não servirá mais para solucionar os desafios futuros. Tantas mudanças ressaltam a importância de desenvolver a cultura da aprendizagem, analisada em A Quinta Disciplina por Peter Senge (2008) ao definir que Inovação e aprendizagem se referem a domínio pessoal, modelos mentais, visão compartilhada, aprendizagem em grupo e pensamento sistêmico, como requisitos fundamentais para a dinâmica das organizações.

O processo de aprendizagem é a base para todos os níveis organizacionais. E, sem dúvida, é a base para todos os níveis na vida pessoal. Portanto, a capacidade de aprender novos caminhos e novas possibilidades é de um valor inestimável.

Entendemos o Coaching como uma modalidade de processo de aprendizagem, um instrumento potentíssimo para o desenvolvimento desta habilidade acerca do próprio indivíduo e do universo onde está inserido.

Revisitando autores como Carl Rogers e Paulo Freire e reconhecendo no Coaching um processo de educação, faz-se importante refletir sobre o papel do Coach: apoiador e facilitador. Sendo assim, nossa reflexão mais contundente está na atuação do Coach, que não representa o papel de professor, de mestre ou de consultor.

Para Rogers, ensinar e transmitir conhecimento tem sentido num meio imutável. Entretanto, se há algo que não faz sentido neste mundo pulsante é nos relacionarmos com o conhecimento como se o mundo fosse imutável. Portanto, ao ensinar o que sabemos (estamos no passado), talvez, não estejamos em nada contribuindo para que o Coachee escreva seu futuro.

Afirma sabiamente Rogers (1978): “Enfrentamos, a meu ver, situação inteiramente nova em matéria de educação, cujo objetivo, se quisermos sobreviver, é o de facilitar a mudança e a aprendizagem. O único homem que se educa é aquele que aprendeu como aprender; que aprendeu como se adaptar e mudar; que se capacitou de que nenhum conhecimento é seguro, que somente o processo de buscar conhecimento oferece uma base de segurança”.

Em um processo de Coaching busca-se essencialmente a mudança focada na autonomia para escolhas, ações e resultados. Enfatiza-se o empoderamento, convidando o Coachee a revisar – e até romper com – padrões de pensamento e comportamento, se este for seu desejo e movimento.

Compreende-se que mudanças profundas e duradouras somente ocorrem quando o processo de aprendizagem caminha paralelamente ao processo de trabalho, ou seja, atualizar o conhecimento e transformá-lo em ação.

Para Paulo Freire (1996), “Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos em suas relações uns com os outros e todos com o professor ou a professora ensaiam a experiência profunda de assumir-se”.

Talvez seja esta a grande magia do Coaching; a possibilidade do Coachee assumir-se como protagonista da sua própria história, considerando suas próprias escolhas de maneira a sentir-se pronto para suas próprias mudanças, nas mínimas ações cotidianas.

E neste sentido do ensinar / aprender numa mesma condição de troca, poeticamente segue Paulo Freire: “Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado. Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado, mas, consciente do meu inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado”.

Se, como Coach, me reconheço desta forma e assim reconheço o Coachee, compartilho com ele a esperança e a alegria da mudança para ser o que deseja ser, tornando-nos cúmplices na caminhada, na forma como deseja ser e como pode ser a cada tempo. Assim como o Coach, ambos sendo transformados.

Diz Paulo Freire: “ensinar não é transferir conhecimento, conteúdos nem formar é a ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. (…) quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”.

A liberdade para aprender pressupõe, não somente Coachee então, mas também o Coach, inteiros na relação. Um encontro de almas humanas.

Faço um convite aos colegas Coaches, para que nos desafiemos à não diretividade, à aceitação e reconhecimento do Coachee como um sábio que necessita de nossa parceria em um momento de sua vida como companheiros de viagem, como interlocutores de sua própria sabedoria que precisa ser provocado à ampliação do seu olhar, de sua percepção.

Convido-os igualmente a nos olharmos pessoalmente e reconhecermos nossos conteúdos e identificações, possibilidades e limites, humildemente nos colocando ao lado dos que nos convidaram à viagem temporária de duas almas humanas.

Publicado em 09/03/2013
Ana Paula Peron é Coach e consultora, diretora da Presence Desenvolvimento de Talentos e se dedica a estudar e divulgar os estudos sobre Coaching através da ABRACEM.

 

Referências Bibliográficas
FREIRE, Paulo. (1996). Pedagogia da Autonomia – saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra.

KRAUSZ, Rosa (2007). Coaching Executivo – A conquista da liderança. São Paulo: Nobel.

ROGERS, Carl R. (1978). Liberdade para Aprender. 4.ed. Belo Horizonte: Interlivros.

SCHUTZ, Will. (1989). Profunda simplicidade. São Paulo: Ágora.

SENGE, Peter M. (2008). A quinta disciplina: arte e prática da organização que aprende/ 23 ed – Rio de Janeiro: BestSeller.