Boletim Informativo – Ano 03, Junho de 2009 – Número 02
22/06/2009
RESENHA: “Hostage at the Table” de George Kohlrieser
01/09/2009
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Maieuticando: Para nos tornarmos Coaches

Por Cleila Elvira Lyra

Geralmente somos despertados para a possibilidade de atuarmos como Coaches em virtude de havermos observado algum Coach, participado de um processo de Coaching ou imaginado, após entrarmos em contato através de palestra, site, conversa, filme, que isto que vimos e ouvimos tem a ver conosco, tem a ver com nossas competências e nosso desejo.

Depois da confirmação e da decisão, existem vários caminhos possíveis para que possamos iniciar a carreira, desenvolvendo as competências necessárias para sermos Coaches. Dentre esses, os mais comuns são: a) participar de cursos e formações, b) participar de um programa de Coaching com essa finalidade, c) estudar através de livros, artigos, sites. Nenhuma dessas formas prescinde da mais importante, que é de alguma maneira, entrar em contato consigo mesmo para descobrir nossas próprias luzes e sombras. Isto inclui descobrir nossas competências e nossas fraquezas, reconhecimento este, essencial para que possamos apoiar um processo, parecido e tão delicado de outra pessoa.

Dentre as condições pessoais do Coach para sustentar a aliança, entre ele e seu Coachee, que ele mesmo deve estimular, algumas são essenciais.

Em inglês, a forma de expressar a ideia é “walk the talk”, que em português dizemos: seja congruente, faça o que você fala, ou ainda coincida seu discurso com sua prática. Ou seja, se você for daqueles que expressa suas ideias em belos discursos sobre meio ambiente, mas continua se enchendo de sacolas plásticas quando vai ao supermercado, algo está fora de lugar, ou seu discurso ou sua prática. Assim, existem muitas perguntas que devemos nos fazer antes de nos candidatarmos a sermos Coaches. Alguns exemplos: a) eu acredito que todos os seres humanos podem se desenvolver? b) Eu acredito que cada pessoa que vem até mim como Coachee tem o “mapa” do seu problema em algum lugar “perdido” de si mesmo? c) Eu acredito que eu não posso fazer nada por ele e tampouco ensiná-lo, que tudo dependerá da nossa capacidade de aprender, na nossa parceria? d) Eu acredito que o Coachee é livre para fazer suas escolhas e que eu não tenho direito de influenciá-lo para a direção que eu achar a melhor para ele? Essa última questão é bastante fácil de ser confirmada na pratica: quantos de nós permitimos a nossos filhos escolherem as carreiras que eles desejavam, por exemplo, em lugar do executivo o músico? Desse modo, temos que desenvolver primeiro em nós mesmos aquilo que pretendemos sustentar na relação com o outro.

Outro aspecto que eu considero essencial é o que chamo “janela de mundo” e nesse sentido parece que a idade e as vivencias da vida favorecem algumas pessoas. As pessoas com mais tempo de vida tiveram mais oportunidade, que os que têm menos tempo de vida, de experimentarem situações diferentes e acabam por isso desenvolvendo (se forem capazes de autorreflexão) mais sabedoria. A sabedoria as torna menos ansiosas, mais autoconfiantes, mais capazes de “segurar” certos momentos emocionais difíceis que se pode atravessar em processos de Coaching. Além disso, como as pessoas mais vividas, em geral, já não precisam demonstrar suas competências, pois já têm resolvidos seus problemas de autoestima, podem ser mais não-diretivas com seus Coachees. Elas geralmente aprenderam a ser mais pacientes. Podem ainda, apoiá-los na exploração de alternativas de ações, de modo mais amplo, pois adquiriram uma visão mais larga de mundo. Sendo mais clara, a profissão Coach não deveria ser a primeira opção de alguém recém-formado, pois vão lhe faltar alguns recursos pessoais, mesmo tendo todos os técnicos e metodológicos.

Existe também a preocupação com seu target. Acredito que “cada Coachee tem o Coach que merece” e vice-versa. Cada Coach deve ter claro seu próprio perfil pessoal e mundo de interesses para poder posicionar-se adequadamente e atrair para seu trabalho, aqueles Coachees que tenham mínima identificação consigo. Creio ainda que como não existe a ciência neutra (1), muito menos existe um Coach neutro. Em outras palavras, considero ético que um Coach se mostre o mais possível naquilo que é, se possível escreva ou mantenha um site onde revele suas ideias e valores e convide seus clientes interessados a visitarem esse site, para confirmarem se há alguma identificação ou não. “Ficar em cima do muro”, não contribui em nada para um processo de Coaching, a menos que o Coach seja capaz de manter-se assim durante todo o processo, no nível consciente e inconsciente, o que sabemos ser praticamente impossível. Já o disseram Freud, Lacan e todos os psicanalistas, mas também um biólogo, por exemplo, Maturana (2), que “nós seres humanos sempre fazemos o que desejamos, mesmo quando dizemos que somos forçados a fazer algo que não queremos, que não gostamos. O que ocorre neste último caso, é que nós queremos as consequências que acontecerão se fizermos o que reclamamos que não queremos fazer. Isto é nosso desejo, nosso desejo consciente e inconsciente determina o curso de nossas vidas e o curso da história humana. [ ] … é por isto que frequentemente não gostamos de refletir sobre nossos desejos. Se nós não vermos nossos desejos podemos viver sentindo nenhuma responsabilidade pela maioria das consequências do que fazemos”.

E para finalizar este escrito, seria importante lembrar que deve existir, para cada interessado em melhorar sua performance como Coach, um espaço onde ele possa compartilhar suas ideias e experiências. É sumamente importante estar conectado com outros para compartilhar acertos, duvidas e maus passos. Fazer parte de uma associação através da qual possamos organizar o que acharmos interessante para podermos nos expor, e na exposição dialogar, e no diálogo aprender e ensinar e assim desenvolver e melhorar as condições da oferta de serviços em Coaching, no nosso país. Esta atitude deve constituir-se parte da nossa ética e da nossa responsabilidade.

Publicado em 30/06/2009

Cleila Elvira Lyra é Mestre em Sociologia das Organizações (UFPR), Psicóloga, Pós-graduação em Psicologia Social e em Desenvolvimento Organizacional. Formação em Coaching Executivo e Empresarial (ABRACEM).

Formação Coaching Profissional (Self Empowerment Institute – SP) em curso. Atuação em Coaching profissional há 7 anos e há 30 anos em consultoria para desenvolvimento humano.

Leciona em Pós graduações na FAE Business School-Curitiba, na UFPR e na UPRA (Angola/ África).

www.lyraconsultores.com.br

 

Referências Bibliográficas

(1) JAPIASSU, Hilton F. EPISTEMOLOGIA O mito da neutralidade científica. Rio, Imago, 1975 (Série Logoteca) / TRINDADE, André. Os direitos fundamentais em uma perspectiva autopoiética. Porto Alegre: Livraria dos Advogados. 2007. / WEBER, Max, A “Objetividade do conhecimento na Ciência Social e na Ciência Política. In: Metodologia das Ciências Sociais. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1993. / SIMON, H. A. Comportamento administrativo: estudo dos processos decisórios nas organizações administrativas. 2.ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1965. (2) MATURANA, H. Metadesign. Copyright 1997, 1998 Instituto de Terapia Cognitiva Artigo. Disponível no site: http://www.inteco.cl/articulos/metadesign_parte2.htm