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Maieuticando: O lugar da intuição

O lugar da intuição: no Coach, no Coachee, no Coaching e na organização.

Por Cleila Elvira Lyra

O tema tem se tornado motivo de reflexão e uma das razões é que a questão do espaço (não espaço) para os intuitivos vem chamando minha atenção, depois de haver aprofundado os estudos sobre as dimensões psíquicas, pelo olhar do analista Carl Jung.

Assim, como diz a letra de Fernando Pessoa no fado Cavaleiro Monge… caminhais libertos… sem ter horizontes… por rios sem pontes… caminhais em mim… só abrimos a possibilidade de acolher intuitivos, quando deixamos que esse caminho se faça antes em nós mesmos. Sentir na pele a dificuldade em ser habitados pela dimensão do espírito e conviver no ambiente organizacional (habitado pela dimensão material), talvez leve Coaches, a receber de braços abertos (procurando manter os pés no chão), Coachees, muitas vezes desacertados, desconcertados, inadequados, desconfiados e desacreditados nas suas organizações de trabalho. Talvez o nome mais apropriado para esse abrir os braços que descrevi seja capacidade de empatia, um dos principais componentes da inteligência emocional.

Na maioria dos ambientes organizacionais existe espaço para os tipos psíquicos Ss, St e Ps na terminologia Junguiana. Respectivamente pessoas com predomínio da Sensação (os que gostam de perceber através dos cinco sentidos e por isso são práticos), Sentimento (os que decidem com base em valores e por isso são afáveis) e Pensamento (os que decidem com base na lógica e por isso são focalizados). O In da Intuição fica mais com o primeiro fundador e, agora, com o pessoal da TI e uns poucos da P&D. Fora desses lugares existe pouco terreno para os que percebem através de downloads/insights que lhes chegam de não sei se onde e, por isso, são pessoas misteriosas, imprevisíveis, instáveis e criativas.

Certo dia, dialogando com a RH de uma empresa cliente, acerca dos encaminhamentos de Coachees da sua empresa e suas respectivas escolhas, ela me disse: “tenho notado que eles escolhem os iguais, o que você acha?”.

Bravo! Ela foi ao ponto, eu não havia pensado assim tão direto e preciso… justamente pelo que venho escrevendo, mas pude acolher essa observação com muita atenção e foi motivo de inquietação profissional. De tanto apoiar os processos de autoconhecimento no outro, os Coaches vão abrindo e aprofundando os seus também e, assim, vamos agregando mais elementos, consideravelmente importantes, na atenção que prestamos à relação que se estabelece entre Coach e Coachee.

Já são tantos, mas sugiro agregar mais um: o perfil psíquico do Coach em face do Coachee e a grande chance de ser escolhido por um “igual”.

A indagação que vem a seguir é: quais as forças e as debilidades dessa maneira de escolher/ser escolhido?

Espreitando somente um pedacinho do caminho das FORÇAS, logo se avista a segurança. Entre “iguais” sentimo-nos confortáveis, em casa, e assim, poucos esforços em entender e se fazer entender são necessários. A identidade de raciocínio dá velocidade ao processo vez que a linguagem, as imagens, os fundamentos de cada situação são facilmente entendidos e acordados. Vamos parar por aqui, sabendo que existem mais, como por exemplo, a confiança gerada pela segurança que permite o aprofundamento da aliança e a coragem para aceitar os desafios propostos, de experimentar outros comportamentos.

Agora, se espreitarmos um pouco no caminho das DEBILIDADES, vamos logo avistar a tendência à manutenção do mesmo padrão de comportamentos e, em consequência, talvez não alcançar a qualidade e quantidade de aprendizagem/resultados de que o Coachee seria capaz. Ou seja, um limite ao desenvolvimento do Coachee e também do Coach. Leia-se condição de baixo desafio para ambos e assim, o resultado final poderia, nesse caso, ser mais quantitativo que qualitativo, mudar sem se transformar.

As mesmas dificuldades acontecem entre líder e liderado. Geralmente nesse âmbito, como o liderado não tem muita chance de escolher seu líder acontecem toda sorte de possibilidades, indo desde a apatia e a mesmice sem desafios, por um lado, até a “incompatibilidade de gênios”, por outro. Nesse segundo caso geralmente o dano pode ser maior e, creio que todos conhecemos exemplos onde apareceu um embotamento com efeitos de empobrecimento de talentos para logo mais se erigir uma impossibilidade, em virtude de divergência de estilos cognitivos (percepção e linguagem) entre líder e liderado.

E como lidar com isso? Tenho notado a importância de alguns instrumentos de análise de perfil, para auxiliar na constatação desses modelos mentais, a partir do que, nasce a possibilidade de propor modos de otimizar tais diferenças, integrando-as em lugar de excluí-las.

Se essa constatação é importante em qualquer modelo mental, ela é imprescindível no caso dos intuitivos, que via de regra se veem sem acolhimento, sem lugar e facilmente se perdem nos corredores das organizações. Estas parecem que quanto mais profissionalizadas, mais impiedosas com esse grupo, esperando que eles se comportem de modo semelhante ao modelo predominante Ss: pesando, medindo, fazendo, demonstrando de modo objetivo e inconteste.

Tenho tido oportunidade de encontrar alguns intuitivos que haviam perdido a autoconfiança, não conseguindo mais entender onde estava o início do fio da meada. Em todos os casos, o processo de Coaching teve seu verdadeiro início, quando ao trabalhar o estilo cognitivo, surgiram entendimentos e expressões de alivio do tipo: aha! Então deve ser por isso…

Em alguns casos que encontrei, o Coachee ao notar o lado positivo do seu estilo intuitivo, como a visão sistêmica, a conexão com o futuro, a originalidade e criatividade consequentes, houve a possibilidade do início do reestabelecimento da autoconfiança. Passo seguinte, via de regra, vem a maior aceitação da necessidade de poder expressar e tornar útil esse talento, em lugar de desperdiçá-lo na organização. Esse entendimento geralmente facilita o interesse em buscar formas mais convencionais de relacionamento com outros que não conseguem acompanhar seu modo de pensar.

Para ilustrar trago um trechinho de um case. Uma colaboradora de uma Coachee, Gerente Comercial altamente intuitiva, em uma reunião de feedback disse: “os pensamentos dela são como nuvens. Elas estão completas, lá no céu… e enquanto nós aqui estamos tentando decifrar (suas partes), ela já se dissolveu e formou outra, diferente”. Quando relatei à minha cliente esta sorriu com prazer, se reconhecendo integralmente e disse: “é assim mesmo… acho que eles não conseguem me acompanhar… então eu preciso ir mais devagar e demonstrar as partes da minha nuvem…”.

A partir de então passou a fazer desenhos e gráficos (em flip charts, papéis…) nas reuniões com a equipe, para dar detalhes e tempo para todos chegarem junto, e com ela alcançarem a nuvem no céu, trazendo-as (líder e nuvem) para mais perto.

Para concluir sem conclusão, deixo indagações: estamos preparados nas organizações para acolher os criativos (geralmente intuitivos)? Ou tentamos encaixá-los em padrões de comportamento estabelecendo expectativas e mensurando seus resultados da mesma maneira que aos outros e, assim, aprisionando seus talentos?

E como Coaches? Estamos conseguindo dar lugar a esse modo, “fora da casinha” de perceber e lidar com a realidade? E ainda: Que aprendizagens transformadoras necessitamos para lidar com os estilos cognitivos diferentes do nosso?

Observação: O espaço Maiuêutica-ndo foi aberto para que dialogássemos sobre questões emergentes na nossa prática de Coaching. As vivências no processo, como Coach ou como Coachee, com suas dificuldades e dúvidas, daí seu caráter ao mesmo tempo informal e pessoal.

Publicado em 01/05/2012

Cleila Elvira Lyra é Mestre em Sociologia das Organizações (UFPR), Psicóloga, Pós-graduação em Psicologia Social e em Desenvolvimento Organizacional. Formação em Coaching Executivo e Empresarial (ABRACEM).

Formação Coaching Profissional (Self Empowerment Institute – SP) em curso. Atuação em Coaching profissional há 7 anos e há 30 anos em consultoria para desenvolvimento humano.

Leciona em Pós graduações na FAE Business School-Curitiba, na UFPR e na UPRA (Angola/ África).

www.lyraconsultores.com.br