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Maieuticando: O Coachee e sua implicação no processo

O Coachee e sua implicação (1) no processo

Por Cleila Elvira Lyra

Não sei se em todas as cidades desse país se vive essa mesma experiência, mas tem sido quase de praxe, no Paraná, no campo do Coaching Executivo e Empresarial, que um interessado no processo, visite dois ou mais profissionais para escolher, entre esses, aquele que será seu Coach. Ou em outros casos, o oposto, o Coachee não tem nenhuma possibilidade de escolher seu Coach, uma vez que este lhe é direcionado pelo RH da empresa. Vamos pensar um pouco sobre o primeiro caso, pois tem sido bastante frequente.

Ainda por aqui, refiro-me ao Paraná, essa primeira sessão (que alguns chamam reunião, talvez pelo receio de se assemelhar a psicoterapia), diferente do campo da clínica, não é cobrada. Além disso, depois das visitas (sessões de contato) quando o candidato a Coachee definiu seu Coach, muitas vezes sequer faz a formalidade/gentileza de informar, àquele (s) que excluiu, que fez outra opção, deixando algo (um pré-vinculo) em aberto.

Gostaria, diante desse quadro, de levantar algumas questões, que podem incidir ou pelo menos tangenciar o delicado espaço da ética profissional – ou melhor, deontologia, uma vez que a ética é mais abrangente.

Parto da seguinte dúvida: porque existem dois modelos de prática tão diferentes para a mesma finalidade, na clínica e no Coaching? Refiro-me, por ora, apenas a oportunidade, desejo ou necessidade de contatar/conhecer pessoalmente um profissional. Por esse desejo na clínica se paga e no Coaching não.

Minha dúvida vai mais além de uma simples questão monetária, se endereça para a questão simbólica envolvida no ato de um pagamento e, desde esse angulo indago: Por quê? O que está em jogo no ato de pagar ou não pagar? Quais seus possíveis desdobramentos?

Evidentemente que não podemos nos contentar com uma resposta tão simplista quanto: são dois campos totalmente diferentes, pessoas jurídicas e pessoas físicas. Ou ainda são motivos diferentes, problemas emocionais e problemas profissionais. Como temos já discutido nos nossos encontros e artigos pela ABRACEM, algumas práticas não são tão diferentes assim e, ao contrário, em muitos aspectos são muito semelhantes. Deixemos de lado o fato de que para alguns Coaches não existe diferença nenhuma, na sua pratica.

Pensando em questões bem rasas, entendo que o tempo – que em última análise é o que se cobra – é exatamente igual nos dois âmbitos. Ou seja, ele é utilizado da mesma maneira, transcorre de segundo em segundo até os 50’ ou 60’ e o Coach não pode estar fazendo outra coisa naquele momento, ele como o terapeuta, está todo, inteiro ali naqueles minutos.

Seria acaso uma diferença de atitude do cliente (2) em relação ao terapeuta ou ao Coach? E / ou seria acaso uma questão de posicionamento diferente do terapeuta e do Coach?

Analisemos um pouco a questão da atitude.

Podemos aventar algumas hipóteses, como por exemplo, no primeiro caso, da terapia, haveria maior respeito pelo tempo do profissional? Consistindo em um respeito prévio à sua competência, de maneira que toda relação é tratada como algo mais sério, que vale a pena e que merece ser pago mesmo que não haja continuidade? Nesse raciocínio, o segundo, o Coaching, seria então considerado algo mais acessível e disponível a ser comprado (em alguns casos é o departamento de Compras que fecha o negócio) e que está em uma vitrine para ser escolhido (ou não), depois de um test-drive?

Uma decorrência (ou causa) dessa possível diferença de atitude do cliente se assenta em uma premissa bastante cara para área clínica, trata-se da implicação do sujeito. Pensemos um pouco mais.

O analista / paciente faz um esforço pessoal, pois geralmente é ele que busca seu analista / terapeuta e o escolhe com base em referências prévias. Entre outras possibilidades, ele o conheceu pessoalmente em alguma atividade pública, leu algum artigo, livro, site ou se não o conhecia previamente, ele buscou referências, indagou a respeito, interessou-se por conhecer algo sobre o estilo de trabalho e abordagem a partir de indagações a seus conhecidos. Dessa maneira, sendo seu o esforço, existe uma implicação, tanto que inclusive podemos literalmente afirmar que ele “paga para ver”.

O Coachee por outro lado, geralmente (considerando que o RH é que faz toda essa busca) pouco esforço faz e só se implica quando chega o momento de definir sua escolha, após haver conhecido alguns potenciais Coaches. Entretanto em muitos casos, implica-se tão pouco que sequer sabe/indaga o valor a ser pago por sessão, ou o custo final do processo.

Uma primeira indagação se faz necessária. Será que esse tipo de atitude não gera diferenças no “contrato” de trabalho, bem como no processo? Na atividade clínica sabemos que o pagamento das sessões é questão de suma importância, representando principalmente e justamente a implicação do sujeito, ou seja, o seu desejo colocado na atividade de “cura” /mudança, que ele demonstra entre outros através do pagamento.

Deixemos por ora em suspenso o raciocínio correlato no campo do Coaching, que por analogia promove pouca implicação por parte do potencial Coachee, e, aprofundemos a reflexão sobre os efeitos dessa possibilidade de test-drive gratuito, olhando um pouco para os profissionais: terapeuta e Coach com seus respectivos posicionamentos.

Como se comporta um terapeuta, na primeira sessão, sabendo que seu cliente o escolheu em definitivo (mesmo que seja apenas uma suposição)?

Como se comporta, por outro lado um Coach, na primeira sessão, sabendo que seu cliente ainda não fez sua escolha? Que esse pouco ou nada sabe a seu respeito (pois foi o RH que o encaminhou) e, que está sendo/será comparado a alguém?

Parece-me uma decorrência natural que cada um deles (terapeuta e Coach) se posicione de modo diferente. Desconsideremos a ética de ambos, imaginemos os dois, acima de qualquer suspeita.

Nesse ambiente relacional é de se supor que o primeiro (terapeuta) esteja bastante confortável. Ele não fará nada em especial para acentuar suas habilidades, qualidades, histórico, experiência, competência enfim. Estará relaxado, sentindo-se respeitado e valorizado, pois se sabe “escolhido” mesmo sem saber a razão, está em algum momento, agora ou mais tarde, seguramente virá à tona e será devidamente trabalhada no processo.

O ambiente “natural” do segundo (Coach) se configura um pouco diferente. Em tal ambiente relacional é de se supor que ele esteja entre pouco à vontade e desconfortável, pois a situação real, nua e crua é de compra-venda ou de exposição-vitrine onde ele deve ser capaz de se sobressair e o pior, de “encantar” ou ainda de “fechar um negócio”. Pode-se dizer de outro modo, mas a verdade é essa. Como fica então o clima entre ambos e sobretudo para o Coach? Ele poderá/tenderá a tratar a situação de modo especial (inconscientemente ou não) para acentuar suas habilidades, qualidades, histórico, experiência, competência enfim. Em decorrência estará pouco relaxado e, se for competitivo e ambicioso (perfil sempre considerado desejável para as organizações) poderá fazer-se valorizar para ser “o escolhido”. Se esse Coach tiver necessidade de prestígio, poder ou dinheiro poderá omitir (inconscientemente, pois pressupomos ética) traços de seu perfil ou maneira de trabalhar e inclusive se ajustar às necessidades do Coachee, como diz a música de Chico Buarque: “… Rodava as horas pra trás, Roubava um pouquinho, E ajeitava o meu caminho, Pra encostar no teu…”.

Além disso existe outra questão importante a ser pensada. Trata-se de um investimento que o Coach faz em um processo, através de uma sessão grátis, onde demonstra claramente seu interesse no caso, seja ele qual for. Em outras palavras, o Coach demonstra seu interesse antecipadamente, ele se implica em primeiro lugar e só depois, talvez o Coachee vá demonstrar o seu, se implicar, em outras palavras, entrar, mergulhar, se responsabilizar.

Trata-se de um tema muito complexo, que não pode ser tratado adequadamente e tampouco solucionado por uma só pessoa e através de um artigo, mas convido todos ao Coaches da Abracem a refletirem sobre essa prática e seus efeitos.

Continuando um pouco as indagações, não seria útil perguntar: será que isso é saudável? Como fica essa parceria, essa aliança onde um entra primeiro às cegas (justamente aquele que tem a responsabilidade de guiar o processo), enquanto que o outro faz um test drive para só depois aceitar ou rejeitar a parceria oferecida?

Esse tipo de posicionamento do Coach não poderia promover um enfraquecimento da confiança, da suposição de um saber para guiar? Será mesmo que nessas condições haveria a possibilidade de que se constitua no processo um “Sócrates para acompanhar o parto”? Não se correria o risco, entre outros, de contribuir para uma aliança fraca e logo uma atitude de pouco comprometimento por parte do Coachee?

Muitos coaches não apreciem tratar a relação de parceria que se estabelece entre Coachee e Coachee em termos de poder. Mas convenhamos alguém tem a responsabilidade de guiar e, aliás, será cobrado o tempo todo pelo sucesso da parceria. Esse alguém é o Coach e assim, como poderia ser então igual tal relação?

Mas nesse caso, aqui desenhado, tal relação não-igual, se inverte totalmente. É o Coachee que tem poder sobre o Coach, entre outros pelo fato de poder testar, sem inclusive “pagar nenhum preço”, e assim não precisar se implicar “de entrada”. Nesse caso foi só o Coach que “entrou” no processo. O Coachee entrará ou não dependendo do um forte desejo pré-existente e/ou da habilidade do Coach.

Haveria ainda umas quantas questões em torno dessa mesma duvida: As diferenças no contato-contrato em situação de terapia e no Coaching podem e devem ser tão diferentes assim no que diz respeito a relação atitude-posicionamento do Coachee-Coach? Mas não cabendo discussões exaustivas e profundas nesse espaço, deixemos esboçada para algum outro Boletim ABRACEM, uma questão que não se cala em nosso superego e na nossa responsabilidade como Associação de Coaching: o posicionamento inicial do Coach, sua simpatia e habilidade de marketing é decisivo na sua escolha pelo Coachee? E mais, o que é ser ético nessas condições?

(1) Implicação – o termo foi escolhido por ser de utilização corrente entre psicólogos, sobretudo os clínicos, significando segundo estes, baseados em Aurélio: ato ou efeito de implicar-se ou comprometer-se, envolver-se, dedicar-se muito a. Novo Dicionário Aurélio, Editora Nova Fronteira. Para os psicólogos significa que cliente se encontra com o que verdadeiramente constitui sua subjetividade, para além da autoimagem (que geralmente é enganadora) e pode assim re-significar suas questões.

(2) Denominarei – cliente para facilitar, mas sabemos que se trata de coachee ou paciente/analista.

Publicado em 31/12/2009

Cleila Elvira Lyra é Mestre em Sociologia das Organizações (UFPR), Psicóloga, Pós-graduação em Psicologia Social e em Desenvolvimento Organizacional. Formação em Coaching Executivo e Empresarial (ABRACEM).

Formação Coaching Profissional (Self Empowerment Institute – SP) em curso. Atuação em Coaching profissional há 7 anos e há 30 anos em consultoria para desenvolvimento humano.

Leciona em Pós graduações na FAE Business School-Curitiba, na UFPR e na UPRA (Angola/ África).

www.lyraconsultores.com.br