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09/03/2013
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Maieuticando: Coaching, freeway ou trilha?

Por Cleila Elvira Lyra

Situação: Reunião de apresentação de uma Coach em uma empresa.

Indagação [1] da cliente: Qual método você segue? São 10 sessões? Como é o processo, começo meio e fim?

Resposta oferecida [em resumo]: não tenho um método com número de sessões e procedimentos predefinidos, me apoio em princípios no direcionamento do processo. No inicio o foco é o autoconhecimento e reflexões sobre competências existentes e desejadas – gap. No meio acontece o aprofundamento dessa consciência de si, a identificação e desenvolvimento dos Conhecimentos, das Habilidades e Atitudes necessárias. No fim a incorporação da preocupação em exercitar continuamente as Competências assumindo o protagonismo e a continuidade do seu desenvolvimento.

Comentário [2] da cliente: não tem um programa definido? Uma técnica? Hum… deu-me uma sensação excesso de liberdade… não é perigoso?

Resposta oferecida [2] [em resumo]: Eu não acredito em programas predefinidos, pois no meu entender, Coaching não é uma questão de técnica, mas uma questão de arte. Assim, não se trata de uma viagem em uma freeway, mas antes uma aventura por uma trilha na mata. Existem muitas possibilidades de se realizar percurso e o Coachee é que vai indicar qual caminho deseja utilizar… eu o acompanharei estimulando reflexões do tipo: “Como você sabe se esse é o melhor? Você sabe nadar? Sabe escalar? Deseja aprender? Deseja mesmo entrar nesse bote para fazer rafting? Tem os requisitos para tal? ” O papel do Coach consiste [em suma] em apoiá-lo na análise das suas competências e escolhas, bem como “treiná-lo” no desenvolvimento daquelas que necessita para que possa percorrer a trilha que ele escolheu e da maneira que escolheu.

Esta situação e esta demanda da cliente nos questionam acerca de um posicionamento profissional. Assim como ela, muitos coachees acreditam [uma vez que algumas linhas de Coaching de fato oferecem/prometem], que as mudanças acontecem sempre, bastando seguir o procedimento preconizado pela metodologia “Y” composta de “x” sessões e “x” exercícios de treino. Portanto, sem grande esforço do Coachee. Como se existisse um método (mágico) de transformar, do tipo reprogramação (PNL) do cérebro. Noto que muitos acreditam nessa possibilidade, porque desejam/sonham que assim seja.

Mas a realidade e a ética profissional nos pedem que ampliemos nosso olhar sobre essa pretensão. Para isso podemos lembrar exemplos do passado, a partir dos quais constatamos que, seja Freud, Jung, Piaget, Lacan, Winnicott, Bion, Moreno, Perls, Klein ou qualquer outro ilustre “bruxo” do mundo psi, nenhum jamais conseguiu transformar alguém de A para B porque tinha um plano/programa exato com etapas e exercícios programados, em um número pré-definido de sessões. Nem mesmo Pavlov e Skinner que tanto acreditaram na capacidade de mudar comportamentos pelo condicionamento, repetição e associação com estímulos determinados. Os cinéfilos devem se lembrar do filme Laranja Mecânica [Kubrick, 1971], onde se verifica mais uma tentativa e fracasso nesse sentido.

Convenhamos, se alguém tivesse descoberto o método capaz da alquimia de pessoas, teria sido consagrado e imortalizado como o gênio do mundo psi. Imagino que fora do mundo psi os administradores, economistas, advogados, médicos, engenheiros ou outros profissionais também não tenham descoberto essa fórmula, caso contrário a notícia já haveria chegado até nós e os grandes educadores, estadistas e presidentes de organizações já estariam com a senha na mão para a alquimia dos seus líderes.

Essa breve digressão nos ajuda a concluir com segurança, que se tantas abordagens, métodos, técnicas, instrumentos existem deve ser porque nenhuma de per si, dá conta da tarefa de modo cabal.

Entretanto continua a demanda no mundo corporativo e a razão pela qual aquela cliente não tenha contratado aquela Coach, pode muito bem se assentar no seu posicionamento. Há razões para pensar que ele afasta, afugenta alguns potenciais cliente e Coachees que buscam resultados rápidos e que gostariam de “mudar sem viver a mudança”.

Convido os leitores a refletirem sobre alguns dos esclarecimentos centrais que deveriam ser apresentados nos primeiros encontros com um demandante:

  • Embora o foco do trabalho seja o desenvolvimento de competências, para chegar lá temos de examinar os fatores que intervém no atual estado e que são responsáveis pela manutenção do gap existente… para depois selecionar o que pode ser realizado para alcançar outro patamar. Esse caminho [deslocamento de um ponto até o outro] necessariamente “cobra seu preço”, pois pode revelar zonas de conforto psicológicas e até físicas bastante difíceis de aceitar e de mobilizar.
  • Enfatizar a importância do comprometimento dele e o fato de que o coach não tem nenhuma [varinha, poção ou técnica mágica, trilha secreta, mapa do tesouro] condição de mudar ninguém e, tampouco, de estimular mudanças em quem não deseje fortemente mergulhar em tal processo.
  • Não oferecer um plano/projeto pronto seguro e simples em 8/10/12 etapas para alcançar o pretendido e, ao contrário, insistir que esse projeto será construído em conjunto, durante o processo, e ainda, que não garantimos que em 8/10 ou 12 ele terá alcançado seu objetivo.
  • Não prometer nada fácil, porque sabemos não ser fácil. Sempre que pretendermos uma mudança duradoura será necessária uma transformação. Deixar claro que pode e certamente vai doer sim… que a trilha tem altos e baixos, mas que ao final trará muita satisfação e bem-estar.

A consequência mais visível de um posicionamento mais claro e real talvez seja que os mais inseguros e controladores procurem os que oferecem as garantias que eles necessitam. Do outro lado, os mais corajosos e/ou com maior disponibilidade para mergulhar um pouquinho além da superfície… aceitam o desafio da co-construção do projeto de Coaching.

A sinceridade [que entendo ética] torna-se ameaçadora e provoca evitação. Mas indago se a escolha por caminhos aparentemente mais seguros, muito estruturados, não tendem a produzir um “adestramento” [modelagem] temporário e não uma mudança transformadora?

Vejo ai a grande importância do papel do RH nas organizações, apoiando a construção da cultura de Coaching… Como? Esclarecendo de modo mais completo os parâmetros dessa abordagem, acentuando o que se constitui realmente um Processo de Coaching, favorecendo uma visão mais real aos futuros Coachees e seus gestores. Feito isso, os interessados saberão distinguir as ofertas [uma freeway ou uma trilha] e escolher o Coach / Coaching / caminho que têm mais condições de encarar.

Publicado em 08/03/2013

Cleila Elvira Lyra é Mestre em Sociologia das Organizações (UFPR), Psicóloga, Pós-graduação em Psicologia Social e em Desenvolvimento Organizacional. Formação em Coaching Executivo e Empresarial (ABRACEM).

Formação Coaching Profissional (Self Empowerment Institute – SP) em curso. Atuação em Coaching profissional há 7 anos e há 30 anos em consultoria para desenvolvimento humano.

Leciona em Pós graduações na FAE Business School-Curitiba, na UFPR e na UPRA (Angola/ África).

www.lyraconsultores.com.br