Estratégias individuais de desenvolvimento
09/06/2013
Boletim Informativo – Ano 07, Junho de 2013 – Número 02
22/06/2013
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Maieuticando: Afinal onde começa e onde se perde o protagonismo?

Por Cleila Elvira Lyra

Inquietações de um protagonista que se perdeu.

Estou andando pelas estradas da vida…
Nem sei por onde vou,
Nem sei para onde vou,
Não sei por que vou,
Não fico feliz onde chego.

Vendo-me distraído,
As pessoas me sugerem…
As pessoas me convidam…
E as pessoas me direcionam.

E eu… sem saber até… quem sou?
Deixo-me levar!
Isso é gostoso…
Às vezes.

Mas quando vai passando o tempo e
Não consigo ser feliz,
Começo a entender que nem sei o que me faz feliz!

Temos recebido pessoas assim em nossos escritórios. Alguns se dirigem também aos consultórios. Pouco importa, pois geralmente essa sensação de descobrir-se confuso, sem foco e direção pode ser trabalhada com a ajuda de um psicoterapeuta ou de um coach.

É muito frequente que as pessoas não escolham suas profissões. Elas se dirigem às estradas mais vazias para não terem de concorrer com muitos na trajetória, ou também se dirigem aos caminhos que podem ser facilitados por alguém já conhecedor daquela estrada. Sem encerrar todas as possibilidades de perder-se, mas encerrando nossas alternativas aqui, há ainda os que atendem diretamente aos desejos e expectativas de outro, sem se darem conta de que não foi sua a decisão original.

Em qualquer dos casos, muitas vezes até esse momento de entenderem que suas bússolas não estão mais apontando o norte, acreditavam que se dirigiam ao Norte, por decisão pessoal, mas, que apenas haviam perdido a bússola. E quem sabe algum remédio que estimulasse o cérebro pudesse resolver. A dúvida era sobre como e não sobre onde chegar.

Um dos sintomas vinculados é um mal-estar indefinido com o qual alguns não suportam conviver e decidem então – muitas vezes ainda estimulados por outro – procurar ajuda.

Outro sintoma decorrente, e que geralmente leva pessoas com a mesma sensação de vazio se dirigirem ao psicoterapeuta [ou médico], é a depressão. E existem ainda outros…

Lembro que por volta dos 30 anos, achei fabuloso descobrir em o Medo a liberdade e em A Arte de Amar, de Erich Fromm, algumas explicações para essa condição humana, que como os títulos já informam, têm a ver com assumir sua individualidade no mundo.

Medo a Liberdade fala de duas dicotomias: existenciais e históricas. Interessa-nos, agora, a primeira cuja luz clareia o exposto até aqui. Através dela revela-se a nossa falta de coragem de nos desvencilharmos das expectativas de outros sobre nossa vida, para assumirmos nossos próprios desejos. Ora, isso envolve riscos, pois se fracassarmos poderemos não ser compreendidos, uma vez que teimamos em agir segundo “nossa cabeça”. E assim, optamos por seguir o caminho indicado, sugerido, trilhado pela maioria, obtendo justificativas e compreensão pelos fracassos, nos tornando vítimas. O que não suportamos é o fardo da liberdade de escolher.

Como consequência, embora A arte de amar, o livro, não aborde a questão dessa maneira, nos perdemos também na capacidade de amar. Nossos amores são idealizados, ou seja, são mentais, pois cremos que amamos o que combina com tudo o mais. Ou, podem ser somente sensoriais, sentimos atração física e confundimos, pois, como podemos amar outro se nem sabemos quem somos? O que somos capazes de fazer? O que somos capazes de “ir à luta” para alcançar? Se nem amamos nossa vida, nossa trajetória, nossa história, nem respeitamos nossa vocação, missão… ora, nem mesmo nos amamos?

Temos ouvido falar que coaching é destravar o potencial, que é um método através do qual alguém consegue se expandir e realizar seus talentos. Essa descrição parece bem intensamente vinculada à ideia de protagonismo. Assumir o protagonismo na sua vida, que significa entre outros, criar uma visão de futuro, uma expectativa para si mesmo, assumir a responsabilidade de fazer escolhas e mover-se em direção a elas.

Uma mulher que escolheu engenharia trabalha em uma grande e atraente organização e aos 30 anos percebe: não gosto mais disso, me sinto melhor fazendo algo totalmente diferente! E se indaga: O que está acontecendo? Me procura corajosamente questionando suas escolhas, sem pretender suportar essa ansiedade-angústia por mais tempo.

Um homem de 47 anos, expert e muito bem-sucedido no campo da Informática vem me procurar, pois está perdido. Acho que não quero mais isso, não gosto mais disso, mas não tenho ideia do que eu gosto! E principalmente, não tenho a menor ideia de como fazer para sair disso?

Um homem de 33, médico… chega a uma primeira sessão – contato. Descreve vários comportamentos que revelam confusão, desânimo, incapacidades [evidentes como sintomas, até para não psicólogos] que persistem há algum tempo na vida pessoal e profissional. Parece claro que nunca fez escolhas, e relata de quanto gosta da harmonia e como prefere fazer tudo para apaziguar pessoas difíceis que estão ao seu redor. Ele ainda não sabe o que acontece, segue olhando para sua profissão sem questionar… porém continua vagando sem trabalho, criticando todos em seu meio social (se vitimando), mas crendo que precisa apenas da bussola [instrumento que perdeu] para alcançar aquele mesmo norte. Como poderia chegar a pensar em questionar suas várias escolhas [socialmente valorizados] e esforços feitos para chegar até aqui?

Idades e gêneros diferentes dos atores nos levam a pensar que esse processo não acontece somente uma vez na vida de alguém. Os humanos vivos, no sentido real e não banal da ideia, passam por momentos de incerteza mais de uma vez na longa vida. Por isso, tendo a pensar que podemos nos denominar protagonistas, quando temos claro que a determinação pelo nosso futuro depende de reflexões – geralmente doloridas – sobre nossas escolhas e condições de ontem e de hoje.

A palavra protagonismo é formada por duas raízes gregas: Proto = o primeiro, o principal e Agon = luta [e agonistes = lutador]. Desse modo, pode-se entender que protagonista seja o lutador principal, o personagem principal, o ator principal.

Vou aproveitar uma ideia de Paulo Coelho, para ilustrar o que entendo por protagonismo: Recuso-me a caminhar com cuidado pela vida, somente para chegar são e salvo na morte.

Gostei também da definição de um dicionário informal na web (1). Ser a primeira pessoa a realizar algo novo e de importância social, estando num plano inicial de uma situação e criando algo proveitoso – uma conquista. Isso faz muito sentido, pois significa, transportando para os casos descritos, ser o primeiro a realizar algo na sua própria vida. Algo nunca realizado (ou influenciado, imaginado por outros). Em outras palavras, original. Desse modo, entendo que protagonista é aquele que busca sua originalidade e a coloca no palco da vida, em uma ação que permite ao ator ser também o autor do seu melhor papel.

O coaching pode oferecer uma bússola, para que essa experiência nunca realizada aconteça pela primeira vez, criando algo proveitoso, sua conquista pessoal e social.

Mas fica a reflexão: deixamos de ser protagonistas em alguns períodos da vida? A vacina que nos imuniza da perda de caminho/sentido é válida por toda a vida?

http://www.dicionarioinformal.com.br/significado/protagonismo/11162/

Publicado em 10/06/2013

Cleila Elvira Lyra é Mestre em Sociologia das Organizações (UFPR), Psicóloga, Pós-graduação em Psicologia Social e em Desenvolvimento Organizacional. Formação em Coaching Executivo e Empresarial (ABRACEM).

Formação Coaching Profissional (Self Empowerment Institute – SP) em curso. Atuação em coaching profissional há 7 anos e há 30 anos em consultoria para desenvolvimento humano.

Leciona em Pós graduações na FAE Business School-Curitiba, na UFPR e na UPRA (Angola/ África).

www.lyraconsultores.com.br