Coaching Executivo: Decisões a ações estratégicas sustentáveis
29/09/2009
Boletim Informativo – Ano 03, Dezembro de 2009 – Número 04
22/12/2009
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CASE: Na berlinda

Por Cleila Elvira Lyra

Minha colega Estela atende um gerente (Sr. X) que ela havia conhecido, como participante de um grupo, em um programa de Desenvolvimento, em uma excelente organização.

Ainda estando dentro da organização, em um intervalo entre um módulo e outro do processo com sua equipe, esse participante lhe telefonou afirmando que estava com um problema, que precisava de coaching, mas que não tinha condições de pagar as sessões e tampouco não sabia quando poderia ser atendido em virtude de seus horários de trabalho, sempre estendidos além da jornada normal. Afirmava que sentia que precisava do seu auxílio, mas não sabia o que fazer, dadas as suas condições. Percebendo sua angustia, Estela se prontificou em ouvi-lo em um sábado, pelo menos uma vez, para quem sabe apoiá-lo no entendimento da sua própria situação.

Isso não aconteceu e depois de certo tempo, o Sr. X lhe informou que optou por não lhe procurar imaginando que poderia colocar ambos, em uma condição difícil. Fique claro que a esta altura ela não tinha a menor ideia do que se passava, apesar de perceber a condição emocional fragilizada do Sr. X. No entanto para ele estava ficando clara a sua situação, a qual Estela veio a conhecer meses depois, como assédio moral, na percepção do seu coachee bem como na de alguns dos seus parentes e médicos. Deve-se ressaltar a grandeza ética dessa pessoa, preferindo não procurar Estela, enquanto ela estava lá trabalhando, para não lhe envolver nas difíceis relações entre ele e sua empresa.

O programa de Desenvolvimento, no qual ele participava, encerrou na organização e ambos não tiveram mais contato.

Entretanto, passados um semestre, ele lhe procurou com a seguinte questão: estava praticamente decidido a solicitar desligamento da empresa. Agravando-se sua situação, sentia-se muito mal e estava sofrendo de vários sintomas delicados incluindo crises depressivas. Entretanto o médico a quem teve que recorrer lhe informou que tinha alguns direitos e que poderia processar a empresa por assédio moral, já que o mesmo alegava toda sorte de depreciação por parte de seu gerente, motivo principal de seu estado.

Foi assim, que estando afastado do trabalho por depressão profunda, em um momento de bem-estar temporário, teve forças para procurar Estela. Apresentou a situação geral: estava em terapia com um psicólogo, estava também acompanhado por um psiquiatra, pois necessitava medicamentos antidepressivos e, além disso, ainda estava sendo acompanhado por um cardiologista, pois manifestava sintomas cardíacos, o que o colocou em alerta máximo. A gravidade da situação envolvia ainda toda sorte de dificuldades com sua família e amigos, detalhes importantes para o caso, mas que omitirei propositalmente.

Diante da grave situação em que o Sr. X se encontrava, Estela, sendo psicóloga, refletiu sobre a possibilidade ou não dele participar de um processo de coaching executivo e empresarial. Dentre suas conjecturas e entendimento, parecia demasiado difícil que em tal circunstâncias o Sr. X tivesse condições de refletir com isenção sobre sua situação, de escolher alternativas de soluções e todo o corolário dos nossos princípios de trabalho (GROW). Parecia-lhe que ele deveria melhorar um pouco sua condição de saúde e depois sim, repensar sua condição profissional, já que estaria em licença médica por alguns meses. Foi o que ela lhe transmitiu, mas sem resultado, tendo ele lhe convencido que tudo estava absolutamente interligado e que ele necessitava do coaching executivo, exatamente naquele momento. Afirmava que vinha buscar no coaching, entre outros, uma orientação ou reorientação profissional, pois estava em dúvidas sobre suas competências e a aplicação delas no seu atual local de trabalho e em futuras atividades. Talvez devesse redirecionar sua carreira.

No momento Estela não havia percebido, mas depois se deu conta de que o Sr. X necessitava reconhecimento, necessitava que alguém que o havia visto de outro modo, produzindo e saudável, o ajudasse a reafirmar (para si mesmo) sua sanidade mental, através da sua condição laboral. Nesse momento o coach seria seu contato mais confiável ao mundo ao qual havia pertencido e que agora parecia estar longínquo e talvez até de retorno duvidoso.

Estela concordou em escutar ao Sr. X, mas decidiu que não iria cobrar, em virtude de seu vínculo anterior com a empresa a qual ele pertencia. E o fez por alguma razão sem razão, ou seja, por intuição, sentindo que ela não poderia recusar tanta expectativa que ele havia depositado sobre a possibilidade desse apoio. Na realidade, segundo Estela, ela tinha clara consciência de que não se tratava da sua pessoa, por isso não se tratava de alguma espécie de seu “poder” pessoal. Aliás, só aceitou atendê-lo, quando se deu conta de que ela não tinha nenhum poder e assim, sem saber nas primeiras sessões, percebeu que se tornou o elo de ligação do Sr. X com a vida saudável.

Estela declara: durante seu processo, em vários momentos nas sessões ficava bem nítido que eu, na posição de coach tratava o seu lado saudável, desafiando-o dentro das suas condições, para alguns movimentos em direção a sua vida profissional, enquanto os outros, psicólogo, cardiologista e psiquiatra, atendiam seu lado enfermo. Em outras palavras, segundo Estela, os outros o percebiam como um doente que necessitava ser amparado e protegido o que, no seu entender, de certo modo permitia que o Sr X se posicionasse de fato como tal. Não que este não estivesse com sua saúde abalada, mas parecia que aqueles profissionais sempre focalizavam e dialogavam com suas restrições.

Segundo Estela, o processo ainda está em curso, avançando lentamente, mas com progressos. Ela não sabe como terminará, tem dúvidas se deveria ter aceitado o caso, mas algumas lições ela já aprendeu e segundo a mesma, se mostraram extremamente relevantes para um coach. Nas suas palavras:

  • Podemos como coaches executivos recusar um atendimento, ao notarmos que somos a conexão do coachee com a vida laboral e os objetivos que ele deseja, mesmo que não saibamos onde o processo nos levará?
  • Essa situação precisa ser bem definida no contrato, para que não se criem ilusos. Mas o que seria mais desfavorável para o ser humano em questão: A recusa do atendimento? Ou um atendimento com perspectiva de sucesso apenas relativo, para o momento?
  • Será que devemos estar dispostos a desenvolver empatia suficiente, para não precisarmos colecionar casos de sucessos, mas casos onde podemos realmente fazer a diferença? (No caso relatado, a de ser o suporte onde se apoia a autoimagem do coachee saudável, buscando manter/restabelecer o contato com seu lado vocacional e profissional e assim possibilitar a retomada da autoestima).
  • Manter uma parte do sujeito conectada com a vida profissional e com pequenos desafios no campo do fazer não será de vital importância para sua condição de reabilitação profissional?
  • Não será que ao aceitar um caso desse tipo nos permitimos entender mais claramente a diferença do coaching e da psicoterapia e aprender a nos posicionar no único lugar correto como coaches executivos? O de falar e escutar sempre a parte saudável do um coachee, mesmo estando este bastante enfermo?
  • Não será que recusar um caso de coaching nessas condições cumpre com a função de nos protegermos de nós mesmos? Nossas impaciências? Nossos limites?

Segundo Estela, no processo existem questões relevantes para o coachee e são as que ele veio buscar. São reflexões e tomadas de consciência em torno de:

  • Melhor identificação de suas forças e fraquezas.
  • Autoconhecimento envolvendo competências, valores, crenças e equacionando com seus objetivos de vida.
  • Motivação e desafio para reagir positivamente às situações que o afrontam.
  • A condição de implicação e assunção da sua responsabilidade na sua doença e na sua saúde, visto que dentre vários gerentes da organização, apenas ele entrou em depressão em virtude da relação com seu gestor.
  • Retomada da autoconfiança ou pelo menos a manutenção dessa em níveis mínimos para que haja continuidade do seu desejo de trabalhar, restabelecer sua saúde e até mesmo viver.

Pergunto com Estela: Isso também é Coaching Executivo e Empresarial?

Aos colegas que quiserem refletir conosco e enviar suas ideias, sugestões, comentários agradecemos, pois assim poderemos melhorar nossas compreensões acerca de dilemas éticos na nossa Associação ABRACEM.

Publicado em 30/09/2009

 

Cleila Elvira Lyra é Mestre em Sociologia das Organizações (UFPR), Psicóloga, Pós-graduação em Psicologia Social e em Desenvolvimento Organizacional. Formação em Coaching Executivo e Empresarial (ABRACEM).

Formação Coaching Profissional (Self Empowerment Institute – SP) em curso. Atuação em coaching profissional há 7 anos e há 30 anos em consultoria para desenvolvimento humano.

Leciona em Pós graduações na FAE Business School-Curitiba, na UFPR e na UPRA (Angola/ África).

www.lyraconsultores.com.br