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:: Maiêuti-Cando: Coaching. Será Arte? Ou será Técnica?
Publicado no informativo de julho/2008
Traduzir-se
Ferreira Goulart
 
Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo
Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim pesa, pondera
Outra parte delira
Uma parte de mim
Almoça e janta
Outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem
Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte
Será arte?
 
 
Bela imagem nos traz Raimundo Fagner em sua indagação sobre a vida. Será arte?
 
Nossa inspiradora, Rosa Krausz, afirma que o coaching é uma arte. Creio que a maioria de nós, participantes daquela formação1, apreciamos tanto a experiência vivida, que não somente assumimos como conceito (já utilizado também pelos psicanalistas lacanianos2 como o experimentamos em nossas práticas profissionais. E, ainda, para muitos, trata-se também de um modo de vida. A vida como uma arte. Sim, mesmo porque se conseguimos praticar esta abertura em nossa atividade profissional é porque também vivemos esta realidade, nas nossas vidas. Não há como sermos completamente diferentes profissional e pessoalmente. E, isto é muito mais verdade quando se trata de uma profissão como a de coach, para a qual se demanda nosso posicionamento como ser. Em outras palavras, a profissão coach nos pede que estejamos presentes inteiramente e abertos ao outro e ao caminho que aceitamos percorrer em companhia do coachee. Não será isto uma arte?
 
Por outro lado, tenho conversado com colegas e percebido que para muitos deles, a profissão coach é muito mais uma técnica. 
 
Em que sentido? No fato de utilizarem técnicas para apoiarem seus trabalhos.
 
Não vou abrir a discussão conceitual sobre o que é técnica. Vou utilizar para que tenhamos todos a mesma concepção, a definição de Aurélio: 1. A parte material ou o conjunto de processos de uma arte. 2. Maneira, jeito ou habilidade especial de fazer algo.
 
Olhando assim, toda arte supõe então uma técnica, seja ela científica (passível de ser comprovada, apoiada em fatos e dados empíricos) ou personalizada (subjetiva). 
 
Sabemos que existem discussões desde os antigos filósofos e, entre estes, os sofistas, em relação ao conceito de verdade. A comunidade científica ao longo dos anos, acabou por emparelhar o conceito de verdade ao de validade, para uma dada sociedade em um dado tempo. Assim, não existem verdades absolutas no campo científico. E aqui vemos a importância do desenvolvimento simultâneo dos métodos (e técnicas) e dos conceitos. Não sabíamos dos fenômenos da física subatômica antes de termos instrumentos que nos permitissem ir literalmente mais fundo, ir além do átomo, para podermos conhecer aquilo que é ora energia e ora partícula. Por outro lado foi pela indagação conceitual, quem sabe a mesma intuição que tanto influenciou Einstein, que desafiamos a realidade buscando conhecê-la mais apropriadamente. 
 
Como disse o psicólogo social Kurt Lewin3: “...nada mais prático do que uma boa teoria”. Esta conversa entre prática e teoria é o que promove a evolução e o progresso do conhecimento e dos métodos e técnicas.
 
Entre os profissionais que atuam em campos onde a subjetividade está sempre presente, como o do coaching, esta discussão também se faz presente há muitos anos, e neste artigo, estou fazendo com que convirjam para um foco especial: os instrumentos que levantam e fornecem perfis profissionais e pessoais.
 
Alguns colegas questionam tais instrumentos por diferentes razões. Suas bases científicas, seus critérios de verdade/validade, sua utilidade uma vez que o coaching é uma arte e seu principal instrumento deve ser a escuta ativa, é o que temos ouvido entre outros argumentos.
 
Creio que devemos refletir sobre uma questão central. Será que as restrições se devem aos instrumentos em si? Seus critérios de verdade/validade?
 
Ou será que o olhar deve ser depositado sobre o modo como utilizamos estas técnicas? O que fazemos com estes instrumentos?
 
Creio ser este o cerne da questão e com base neste entendimento podemos formular alguns perigos do seu emprego em coaching.
 
a) Os instrumentos podem falhar em revelar a abrangência do perfil do coachee mostrando-se insuficientes para apoiar um processo de desenvolvimento. Como um efeito negativo, tem-se um coach alheio a outras potencialidades do coachee, porém sem condições para relativizar o domínio do instrumento sobre sua percepção e até mesmo sobre a auto-imagem do coachee.
b) Os instrumentos podem gerar um acomodamento sob o domínio das técnicas, a crença demasiada nos resultados do instrumento. Como efeito negativo tem-se a diminuição da presença do ser do coach, o que empobrece enormemente o processo.
c) Os instrumentos podem incentivar uma dependência em relação à técnica. Como conseqüência tem-se a impossibilidade de conduzir um processo sem o auxílio de tais materiais de apoio, o que é uma distorção da arte do coaching.
 
Parece que existem argumentos fortes contra o uso de tais apoios.
 
Porém, inspirada pela bela letra de Ferreira Goulart eu arrisco afirmar que a tarefa principal do coach é ser capaz de
Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte
Qualquer das duas partes sozinha, aquela “parte de mim que pesa e pondera” ou a que “delira”, que sonha, que intui, significa “morte” do questionamento, da abertura, da vida como ela é. 
Assim, eu pergunto: sem os instrumentos seria um coach que caísse nas armadilhas da técnica, mais competente?
Deixo a pergunta em aberto. Quem sabe algum colega se interesse em tratar desse tema no nosso 10 FOCO, em algum artigo para o site Abracem ou nos próximos Boletins?

Cleila Elvira Lyra 

Notas:
1 - Formação em Coaching Executivo e Empresarial da Abracem
2 - A psicanálise é uma arte
3 - Muitos psicólogos trabalhando hoje num campo aplicado estão plenamente conscientes da necessidade de uma cooperação entre psicologia teórica e aplicada. Isto pode ser conseguido em Psicologia, como foi em Física, se o teórico não olhar para problemas aplicados com medo dos problemas sociais, e se o psicólogo aplicado perceber que não existe nada mais prático quanto uma boa teoria (p. 191). Lewin, K. (1965). Teoria de campo em psicologia social. Livraria Pioneira Editora. São Paulo

 


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