Quem somos quando somos coaches?
Ou, por que entender e definir o que fazemos profissionalmente?
Cleila Elvira Lyra
Tenho percebido a importância da clareza de uma definição de identidade, como a que a Abracem sustenta através de seus estatutos: somos uma Associação de Coaching Executivo e Empresarial. Os coaches a ela associados, desde que realmente comprometidos com a filosofia, valores, deontologia por ela definidos, podem revelar aos outros, com maior facilidade em que consistem suas atividades.
Existem muitas maneiras de atuar neste campo, algumas mais estritas, podendo chegar a ser rígidas e outras mais flexíveis, podendo chegar a... não-ser.
Trata-se de uma condição que o coaching compartilha com todas as outras modalidades de intervenção, ou talvez, profissões novas e não regulamentadas. Algumas dessas práticas não possuem a exigência de formação universitária específica e tampouco um Conselho Profissional que as regule.
Não pretendo afirmar aqui que a existência dessas condições, em qualquer campo, evite as ações de pessoas pouco sérias. Contudo, se não soluciona problemas de más atuações profissionais, pelo menos os amenizam, por um lado (durante o curso universitário) pelo fato do contato por 3, 4 ou 5 anos com profissionais, professores, teorias e modelos e por outro, pela possibilidade de atuação “vigilante”por parte de uma entidade que zela pela ética profissional, como os Conselhos de classe.
Não sendo esse o enfoque desse artigo, paremos por aqui com essas reflexões de ordem normativas e passemos a colocar nosso foco nas questões ou condições que se pode estimular, a partir de uma associação de profissionais autônomos e heterogêneos como a nossa.
Apesar de já abordado nesse veiculo, (Boletim Informativo Abracem Ano I, n0 3) e também no I FOCO (Coaching Executivo e Empresarial e Terapia: Como distingui-los, por Fabio Michelete, Vânia Brüggeman), persistem as duvidas acerca da faixa que bordeia os âmbitos e permite a distinção entre as atividades de Coaching e Psicoterapia, independente da sua modalidade.
Tendo desenvolvido duas atividades de Coaching no XIII Encontro de Psicologia no Paraná, em 2009, senti-me confortável em responder as várias indagações recebidas acerca dos âmbitos e limites das atividades de Coaching e de Psicoterapia. No entanto enquanto eu estava relativamente apaziguada com essas questões, mesmo com muitas perguntas sem resposta, percebi que muitos dos psicólogos presentes não tinham clareza acerca dos objetivos, conhecimentos necessários e principalmente modos de ação e posicionamentos diferenciais entre as duas atividades.
Alguns dentre aqueles profissionais entendiam que estamos em uma época onde se deve ressaltar o sistêmico, o integral ou holístico. Partindo dessa suposição seus defensores entendiam que os limites entre as abordagens poderiam ser tênues posto que a finalidade era semelhante senão igual, como sugeriam alguns. Para outros, pouco importava o nome do que se praticava desde que existisse um contrato, entre contratante e contratado, e que o objetivo do primeiro fosse alcançado.
Embora concorde plenamente que vivemos em rede, na teia da vida como diria Capra[i], ou que estamos na época do pensamento complexo e que este é tecido junto, como diria Morin[ii], entendo ser justamente mais importante ainda, no momento, saber o que se faz e a partir de qual continente teórico se escuta e se fala. Não fazer isto é correr o risco de sincretismo profissional, ou dito de outro modo, de realizar uma mistura qualquer sem elaboração, integração e síntese. Um posicionamento do tipo, todos os caminhos levam a Roma, no que diz respeito à atuação profissional, pode ocasionar vários tipos de danos, mesmo que simplesmente a perda de tempo e de dinheiro por parte do cliente.[iii]
Lendo em livros, observando os anúncios de cursos de “formação” em coaching e navegando em sites brasileiros e internacionais, percebo que de fato necessitamos falar, discutir, refletir mais sobre este “campo” [iv]. Expressemos pois nossas opiniões e experiências, já é uma maneira de trazer mais informações e talvez algum esclarecimento.
Considero que tudo está interconectado, entretanto se fosse possível facilitar a saída de situações desconfortáveis dos clientes atendendo-o desde esse todo de saberes e métodos respondendo a um todo de necessidades, alguns diriam que bastariam os psicólogos e psiquiatras com suas largas alternativas de psicoterapias e aconselhamentos. Mas por outro lado, outros afirmariam que as formações sobre coaching integral ou coaching de vida preparam seus pupilos de modo que pessoas com demandas tanto profissionais quanto de vida, possam mais rapidamente solucionar seus desconfortos. Em outras palavras, o coaching de vida é mais atual em sua metodologia e assim pode ser mais eficaz que as velhas terapias (sempre imaginadas de longa duração).
As dificuldades em delinear as fronteira entre essas abordagens, que como já citamos têm sido trazidas por membros da Abracem, persistem pelas muitas indefinições, mesmo porque somente expomos mas pouco dialogamos e tampouco debatemos para concluirmos sobre o território até aqui indefinido [para não dizer polêmico].
Diante dessas reflexões, continuei a me perguntar: para que existiriam as psicoterapias se os coaches de vida atendem a pessoas com dificuldades na sua vida pessoal? E por outro lado, para que existiria o Coaching Executivo se os psicoterapeutas atendem a pessoas com dificuldades profissionais?
Entendo que essa mesma região nebulosa encontra-se também mais perto dos associados da Abracem e trata-se da fronteira entre o Coaching Integral (ou de Vida) e o Coaching Executivo e Empresarial. Dispensemos detalhar as ressalvas óbvias, porém trata-se da mesma sorte de ambigüidades que se verificam entre psicoterapia e coaching.
Participando recentemente da vida de uma atriz de teatro e acompanhando seus conflitos com um personagem que necessitava representar, começou-se a fazer mais claro as razões da necessidade de se diferenciar certos papéis e funções. Um ator que não tenha muita clareza da sua condição pessoal, terá muita dificuldade em representar um personagem que lhe exija identificação a algo que para ele não esteja claro em si próprio.
Por exemplo, um papel de homossexual dificilmente será bem desempenhado por alguém que não esteja bem resolvido com sua identidade sexual. Um script de tirano será de difícil assunção por alguém que tenha dificuldades com sua própria agressividade e, igualmente, um papel/personagem que esteja confuso a um ator, não será bem representado por ele. Completando, se não houver compreensão muito clara do personagem a ser representado – isto é seus conflitos, sua personalidade, seu estilo de vida, suas condições e preferências -, destacando-as da sua própria identidade, a assimilação do papel ficará comprometida e a representação pouco convincente. Em resumo, se não houver diferenciação entre o papel e o ator, será mais difícil a integração em uma boa representação, com pouca chance de clareza e capacidade de convencimento na representação do personagem.
Pareceu-me importante essa analogia e sua constatação contribuiu muito para esclarecer minhas dúvidas em torno da minha questão quem somos quando somos coaches? Em que pese possa parecer heterodoxo comparar duas profissões tão distintas, a de ator e a de coach, por outro lado existe pelo menos uma semelhança: nos dois âmbitos de trabalho, corremos o risco de nos confundir porque em ambas somos convocados em nossa essência emocional e anímica, ou seja, em nossa inteireza humana.
Uma das nossas maiores competências como coaches consiste em saber distinguir. Mas só conseguimos fazê-lo, a despeito das ambigüidades do nosso inconsciente, se soubermos quem somos naquele momento, diante do nosso coachee.
Saber quem somos nos permite saber o que estamos fazendo, permite também que nos enraizemos em nossa identidade [de coach executivo, de psicoterapeuta, coach ontológico ou etc.] contribuindo para que nosso “cliente”, também saiba o que está fazendo ali e o que pode esperar.
Em nome do esclarecimento, da aprendizagem, da humildade, convido os colegas a exporem suas idéias para que possamos refletir sobre diferenças de pontos de vista e, assim, façamos nossa parte para o aperfeiçoamento da atuação e da formação do profissional de coaching no cenário brasileiro.
[i] Capra Fritjof. A teia da vida : Editora Cultrix, São Paulo, 2001
[ii] Morin, Edgar. Ciência com Consciência: Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2003
[iii] Designo cliente somente para empregar uma mesma palavra para referir-me ao cliente/paciente/ analisante da psicoterapia e ao cliente/coachee do coaching
[iv] Lewin Kurt. Psicologia Estrutural em Kurt Lewin. Garcia Rosa, Luiz Alfredo: Vozes, Rio de Janeiro, 1972