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:: Maiêuti-Cando - O princípio da alavanca
Publicado no informativo de março/2009

 

O objetivo deste escrito será refletir sobre o que é o coaching, seu valor enquanto método, através da analogia, com uma das técnicas mais antigas adotadas pelo homem, a alavanca.
Arquimedes viveu no século III aC na cidade de Siracusa, na Sicília, então pertencente à Grécia. Foi um dos maiores sábios da antiguidade, tendo se ocupado tanto dos fatos práticos da natureza como de questões abstratas da matemática e da física. É atribuída a ele a frase: Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo".
Arquimedes afirmava, após ter calculado a massa do globo terrestre e seu próprio peso/força, que se lhe dessem um bastão comprido como a distância da Terra à Lua, ele poderia suspender o globo terrestre.
Poderíamos relacionar os três: Arquimedes, bastão e Terra, a outros três: Coach, método e coachee.
Para o cientista tudo dependeria do bastão – suas qualidades (estrutura, firmeza, elasticidade, resistência...) e seu fulcro[1]. A imagem da alavanca em uso pode ser entendia como um dar-se a, uma vez que ela evidencia a inevitável condição dos métodos, que se oferecem, mas se subordinam a um agente.
A imagem igualmente demonstra a articulação entre os elementos, ressaltando a importância da justa adequação entre os mesmos, para se alcançar os resultados desejados.
Arquimedes calculou seu peso/força, calculou a massa terrestre e somente então definiu as especificidades do bastão, a dimensão e o comprimento necessários, bem como o ponto de apoio. Donde se conclui que cada objeto a ser levantado, demanda um conjunto específico de características para o bastão
Seguindo a analogia, Arquimedes deve ser entendido como o coach que se depara com um desafio (suspender a Terra). Desafio este que para ser resolvido através do coaching, requer a execução organizada de algumas ações, envolvendo um coachee, dentro de um cenário político, social, cultural, econômico, emocional, técnico.
Além disso, uma especial ética ou responsabilidade é requerida, na medida em que a pessoa do coach (ou Arquimedes) deve ser incluída no processo em curso. Ela deve ser analisada (pesada, ponderada) e levada em conta para ser capaz de manusear o método (alavanca) e aplicá-lo efetivamente de modo a possibilitar o processo de levantar o mundo. Lembrando também de calcular sua resistência à gravidade, seu medo de altura e todas as demais possíveis dificuldades que o meio ambiente poderá lhe preparar e até surpreendê-lo.
Um princípio no qual o coach Arquimedes deve se pautar, para consecução das suas responsabilidades, além de se colocar na equação, é se apropriar do instrumento, ou seja, “torná-lo próprio”. Determinar o comprimento e as especificidades do bastão, seu próprio peso, sua própria força, em outras palavras, reconhecer sua capacidade (ou não) para caminhar (voar, flutuar) até a lua para desde lá agarrar a ponta da alavanca.
A apropriação do método de coaching, bem como a apropriação da alavanca, só pode ser feita por um coach, se ele conseguir se posicionar na condição de “ser para”, em outras palavras ser em relação. Como Arquimedes, com seu peso, em relação ao mundo.
Esta e somente esta condição lhe permitirá colocar sua pessoa constantemente em jogo, ou no jogo, ou ainda “no fogo”. Desprender-se das suas convicções acerca de si mesmo para poder continuar a se questionar, duvidar, no sentido socrático, de sua capacidade e das suas intervenções poderosas. Colocá-las irremediavelmente em perspectiva ao outro.
É também igualmente este posicionamento (ser para) o melhor meio para que um coach permaneça humilde na busca de constante atualização, humilde quanto a seu juízo crítico, humilde quanto as suas competências, humilde no aprimoramento de suas potencialidades, tornando-se justamente por isto, uma das partes fundamentais. Esta condição, longe de onipotência, é dada pela condição de ser em relação e supõe o abandono da suas tendências pessoais em favor da interdependência. Será dessa maneira que sua ética, arte e responsabilidade em “ser para” permitirão o desenvolvimento do outro (a suspensão do globo terrestre).
Um método deve ser capaz de sustentar uma ação (relação), em virtude de sua função de mediação e articulação entre coach e coachee. Daí dever merecer especial atenção, pois se trata de uma função com ampla penetração e efeito no processo que se desenvolve, ou seja, tanto na dimensão intelectual, emocional, espiritual, física dos dois atores, quanto nos seus resultados.
Assim, o método do coaching mais do que um instrumento (a alavanca de Arquimedes), na verdade é um mediador do processo. E este papel complexo de intermediário torna-se fonte de preocupações quando se observa nos sites e convites para cursos e formações, que existem diferentes tipos de coaching, por exemplo: de vida, integral, espiritual, coaching simplesmente, coaching executivo e empresarial, cada qual com seu método.
Como vimos, não restam dúvidas de que a alavanca ao dar-se a interfere no âmbito e no resultado do processo, no ser para do coach e na capacidade dessa combinação suspender adequadamente a Terra. Cabe-nos refletir, por conseguinte, se existe um método melhor – a melhor alavanca, ou se sendo este um dar-se a, nas mãos dos Arquimedes, a maior atenção deva ser colocada neste ator e sua competência (formação) de apropriação – relação entre coach e método -, para produzir o resultado desejado.
Não se pode ainda concluir esta reflexão sem abordar o mundo - o coachee, que, aliás, não por mera casualidade, é de fato um mundo, fonte de infinitas possibilidades e potencialidades.
Eis aqui o grande ponto de discórdia entre a analogia de Arquimedes e o processo de coaching, pois o mundo do coachee não é completamente dependente de Arquimedes e de sua alavanca. Pelo menos no sentido de entregar-se a completamente para ser modificado por qualquer bastão, isentando-se da sua responsabilidade no processo.
Nesse sentido, cabe mencionar que o coachee (como o mundo) é um complexo sistema aberto em constante dinamismo, em relação com seu meio, com seus desejos, vontades, pressões internas, externas e no mínimo empregando algum dos mecanismos de adaptação (defesa) neuróticos ou não, ao processo. Assim ele colabora ativamente seja com seus desejos, reflexões e ações – sentido positivo ou ao contrário largando seu peso nas mãos de Arquimedes – sentido negativo.
Dessa maneira são três elementos abertos e complexos, completamente entrelaçados, sendo que aquilo que media tal processo, como vimos, é o método (a alavanca), que se configura como propriamente o que permite o estabelecimento dos parâmetros para a abordagem do desafio.
Até aqui abordamos a alavanca – método, como (dar-se a) - mediadora entre Arquimedes (coach) e Terra (coachee) e em virtude de sua posição tão delicada, ser responsável pela boa capacidade de delimitar o ambiente dentro do qual possa acontecer a solução do desafio.
Abordamos Arquimedes – coach, como (ser para) - o responsável por saber apropriar-se do instrumento, torná-lo próprio sendo ético, ou seja, colocando-se no jogo para poder abandonar suas próprias tendências e inclinações para o jogo.
Introduzimos a idéia de mundo – coachee -, lembrando que ele é o objetivo de tudo, mas longe de se abandonar nas mãos de Arquimedes, ele é co-responsável pelo processo.
Entretanto existe um 40 elemento: Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo".
Trata-se justamente do ponto de apoio, o fulcro.
Não por acaso ele é o pivô. Para mim este ponto de apoio que, se oportunizado, é capaz de levantar o mundo, nada mais é do que a aliança que se estabelece entre Arquimedes e a Terra, entre coach e coachee.
Aliança é o ponto de apoio, da relação, sem a qual não há como estabelecer a angulação e a gangorra necessárias para o livre movimento. Sem o pivô (aliança) há estagnação, poderia haver esforço de empurrão, mas por maior que fosse a força ou o desejo de Arquimedes, ele poderia no máximo, com sorte e ajuda dos ventos deslocar, em frações de micro milímetros, a Terra para alhures. Mas nunca a Terra para onde ela desejaria/deveria/poderia ir.
Se o processo de coaching é uma parceria, esta se faz através da aliança. É o que propicia a mudança da condição estática do coachee (Terra) para móvel, construindo-se em grau bastante elevado, desse modo, a co-responsabilidade pelo processo. É, portanto esse pivô o que faculta que o coachee mude sua condição passiva de algo a ser erguido, para ativa, como autor do seu próprio processo de desenvolvimento.
Uma aliança bem construída é capaz de sustentar os movimentos do coachee e do coach, fornecendo-lhes a confiança e a liberdade para integrarem seus esforços e inteligências na mesma direção, definida mutuamente.
Assim, temos os quatro elementos da física: Arquimedes – globo terrestre – alavanca – fulcro, equivalentes analógicos aos quatro elementos do coaching: coach – coachee - método – aliança, os quais se bem entrelaçados criam condições para “levantar um mundo”.
 
Cleila Elvira Lyra


[1] Fulcro - Sustentáculo, apoio, amparo / Ponto de apoio de uma alavanca / Eixo sobre o qual gira qualquer objeto

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