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:: A inspiração do mestre Sócrates para o processo de Coaching
Publicado no informativo de dezembro/2008

 

História
Sócrates (470-399 a.C.) filósofo ateniense, considerado um dos fundadores da atual Filosofia Ocidental pela atualidade e atemporalidade de seus princípios e valores.
Ele dizia que sua sabedoria era limitada à sua própria ignorância, dando origem à frase ‘Só sei que nada sei’. Pensava devagar e não aceitava a primeira coisa que lhe vinha à mente. Buscava se libertar de idéias e conceitos de terceiros, submetendo-os a críticas antes de enunciar seu pensamento.
Segundo Platão, Sócrates não queria ser considerado um professor e nunca se considerou um sábio. Preferia ser visto como uma ‘parteira de idéias’. Ele considerava que qualquer um poderia fazer o que ele fazia desde que se dispusesse a fazer perguntas, aprender com todo mundo e desafiar suas próprias crenças.
Pregava que ao desenvolver a confiança em nossas próprias idéias, ficaríamos menos vulneráveis às influências de opiniões alheias. Acreditava que, para descobrir sua verdadeira vocação, o homem precisava se libertar das expectativas que os outros têm sobre ele.
Jamais deixou qualquer obra escrita. Considerava que o genuíno ato de filosofar exigia um diálogo ‘ao vivo’. O que se conhece dele é através das obras de Platão e Xenofonte com seus Diálogos e Aristófanes com suas peças.
 
Princípios e Valores
Seus princípios e valores são plenamente válidos até hoje e são a chave da civilização ocidental e da educação liberal. O centro de suas preocupações pode ser considerado o mesmo do mundo contemporâneo: amor, amizade, trabalho, sentido da vida, melhoria da sociedade.
Sócrates nomeou princípios em relação ao corpo e em relação à sociedade. Mas é em relação aos indivíduos que esses princípios e valores mais se destacam:
  • Autoconhecimento como base de uma vida autêntica.
  •  Autoridade moral e espiritual do indivíduo sobre sua própria “alma”.
  •  Questionamento do “senso comum” para verificação da verdade, em vez de confiar na tradição.
  •  Liberdade de expressão, direito de discordar abertamente e de questionar a autoridade são elementos essenciais de uma sociedade saudável.
  •  Pensamento disciplinado pela lógica e pela experiência pessoal.
 
O Método Socrático
Sócrates utilizava seu método de ensinar através de perguntas e não da transmissão de informações, processo denominado de maiêutica que significa parir idéias complexas a partir de perguntas simples e articuladas em um determinado contexto. Por meio desse método Sócrates levava seu interlocutor a entrar em contradição, conduzindo-o à percepção da limitação de seu conhecimento ou de sua visão e induzindo à busca do autoconhecimento, uma das maiores preocupações de Sócrates, tal como a inscrição no frontal do oráculo de Delphos: ‘Conhece-te a ti mesmo’. O encontro da verdade interior de cada um constituía-se no ‘parto’ a que Sócrates se referia quando se denominava de ‘parteira de idéias’.
 
A Alegoria da Caverna e o Processo de Coaching
Uma das formas utilizadas por Sócrates para transmissão do conhecimento era pela analogia com mitos e alegorias. A mais famosa, reproduzida e adaptada é a Alegoria da Caverna. Através dos séculos, uma diversificada gama de filósofos e teólogos tem-se referido à Alegoria da Caverna para dramatizar as dificuldades de nosso empenho em enxergar com clareza através de nossas ilusões e fantasias para encontrar a verdade.
Sempre que pensamos em nosso progresso intelectual como um movimento da escuridão em direção à luz, estamos utilizando imagens originadas na alegoria socrática da caverna. Foi a maneira que Sócrates encontrou para dramatizar nossa jornada em direção ao nosso desenvolvimento.
A análise do processo de coaching à luz da Alegoria da Caverna reproduz alguns aspectos semelhantes ao que passa um coachee durante o processo de coaching. Alguns símbolos apresentados na ‘Alegoria da Caverna’ podem ser transpostos ao processo:
 -     As sombras, a penumbra e a cegueira simbolizam as limitações da visão em diferentes graus, e um certo desconforto com a situação sentidos pelo coachee. No mito a penumbra e as sombras no ambiente da caverna, aliadas à imobilidade obrigatória de todos os que lá viviam, resultavam em uma leitura irreal do ambiente.
 -     A saída da caverna simboliza a ampliação da visão e da consciência do coachee.
 -    No momento em que o prisioneiro saiu da caverna pôde perceber como ocorriam os fatos na realidade – bem diferente do que até então era tido como verdadeiro. Esta situação também se aplica quando falamos de coaching – o processo propicia um olhar de fora ou de cima que nem sempre é possível quando se está imerso na situação.
 -    As dores agudas e a perturbação com o clarão da luz, decorrentes da ascensão do mundo das sombras para o mundo do conhecimento, se comparam às dores e temores que o coachee enfrenta quando se depara com os indícios de que ele deverá realizar mudanças para sair da situação em que se encontra, o que vai lhe propiciar uma nova forma de encarar a realidade.
-    Existe dor igualmente – além de perigo – em retornar à caverna com a nova consciência das coisas. Um riscoque reside na irreversibilidade e na possível não adaptação do coachee devido às mudanças pelas quais o indivíduo passa ao longo do processo.
-    O processo de coaching pode ser transformador, pois pode levar a mudanças nas formas de pensar e agir e o coachee, que vislumbrou novas visões e encarou as mudanças, não será mais o mesmo. Esse fato traz consigo um desafio, pois ao retornar ao seu ambiente de origem ele percebe diferenças entre ele e os demais que não passaram pelo processo.
-    O perigo se encontra justamente na não adaptação do coachee a essa nova situação. Em relação a essa questão a habilidade do coach e a maturidade do coachee farão a diferença para que este último possa encarar as mudanças de modo a trazer-lhe os ganhos e o desenvolvimento pretendidos.
-    Ao final do processo de coaching há a possibilidade de o coachee perceber a ampliação de sua visão e a expansão de suas competências e aptidões que poderão levá-lo a ter maior autonomia, sem a necessidade de se prender à situação anterior (caverna).
-    Como desdobramento dessa autonomia conseguida pela passagem pelo processo de coaching, o coachee poderá atuar como um agente de mudança, instigando os demais a perceber a realidade com um foco diferente, considerando a dor como parte do processo de crescimento e desenvolvimento interior.
 
O Processo de Coaching - de ovelhas a seres pensantes
 
Para ilustrar seus pensamentos Sócrates lançava mão de imagens comparativas, como a que exorta a semelhança entre homens e ovelhas. Na sua análise, há muita semelhança entre o comportamento dos homens e das ovelhas. Tanto uns quanto outros seguem o rebanho passivamente e têm pavor de se afastar do grupo. Podemos trazer essa imagem até os tempos atuais, na vida corporativa. Há nas empresas muita pressão pela conformidade. É natural não querer confrontar seus chefes e líderes e querer colaborar, ajudar. Temos a tendência a acreditar que quem ocupa cargos de liderança possui grandes competências e, na maioria das vezes está com a razão.
Era esta tese que Sócrates queria questionar conclamando-nos a analisar logicamente as bobagens que ouvimos das autoridades, em vez de nos intimidarmos por sua aura de importância e aparente segurança. Dizia Sócrates: se você tiver a oportunidade de perguntar a figuras importantes o porquê fazem o que fazem, vai descobrir inconsistências que nem de longe pareciam existir.
Dizia, pois, que não estamos acostumados a ser questionados sobre nossas escolhas. Sócrates queria que superássemos a preguiça e a timidez e descobríssemos em que realmente acreditamos, para que, descobertas as nossas crenças, pudéssemos defendê-las. Se testarmos nossas convicções, seremos capazes de formular opiniões sólidas. “Todos podem pensar, ou, todos têm a responsabilidade de pensar, assim, uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”. 
Resgatando a imagem utilizada de homens e ovelhas e considerando que o processo de coaching facilita a busca de alternativas por parte do coachee através do estímulo à reflexão, e que esta reflexão é patrocinada através da arte de questionar, teremos encontrado em Sócrates uma grande inspiração. Assim como no método socrático, em que a oralidade é o instrumento privilegiado, o processo de coaching envolve muito diálogo e uma escuta mútua e disponível. Promove a reflexão sobre as competências do coachee, suas crenças, seus parâmetros, a fim de gerar aprendizado e iniciativas em benefício de um objetivo pré-determinado.
A exemplo de como Sócrates nos exortava a pensar por nós mesmos, a investigar as origens de nossas crenças e convicções, o coach, trabalhando a partir das percepções do coachee, vai elaborar as perguntas mais adequadas e convenientes, de tal forma a tecer o caminho de ampliação da visão do coachee, a partir de seus próprios recursos. Da mesma forma como Sócrates defendia a inscrição no frontão do oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”, o processo de coaching é uma poderosa ferramenta na busca do autoconhecimento.
Trata-se de desenvolver a autonomia do coachee em superar suas questões, suas inseguranças e resistências através de uma abordagem profissional e isenta, cuja matéria prima é a reinterpretação feita pelo coachee de sua própria experiência. O conhecimento de si mesmo tem um alcance e impacto prático ou ético, que é o de abrir a possibilidade do indivíduo de reconhecer os seus próprios recursos e limites e assim situar-se melhor na sua existência, podendo transformar sua situação diante da vida e do modo coma a vive. Esse é o sentido dessa máxima que marcou o pensamento socrático.
 
Principais ensinamentos de Sócrates para o coaching
 
  • O reconhecimento de saber que não se sabe leva à sabedoria.
  • Para conhecer o coachee é preciso saber que não se sabe.
  • Só assim se pode continuar perguntando e aprendendo.
  • Julgar e pensar por nós mesmos para confirmar ou refutar o que nos dizem.
  • Um dos papéis do coach é estimular o coachee a pensar por ele mesmo e a debater com outras pessoas.
 
 
Bibliografia consultada
GROSS, R. À maneira de Sócrates. Rio de Janeiro – RJ: Best Seller, 2005.
DE BOTTON, A. As consolações da filosofia. Rio de Janeiro – Rocco, 2001
PLATÃO. A República. São Paulo – Editora Nova Cultural, 2000
 
 
Escrito em colaboração por Aurélia Marangoni, Leliane Galan, Rafael G.Aguiar
Filho, Rejane Rosenberg, Rosane Schikmann e Suzana Bandeira1.
                                     
 
1 - O presente artigo é uma síntese do trabalho apresentado pelo grupo, no 10 FOCO – Fórum Brasileiro de Coaching Executivo e Empresarial.
 
 

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