Observando as reuniões ou conversas informais entre profissionais, e sobretudo daqueles que trabalham com pessoas, percebo uma necessidade quase obssessiva, por métodos e técnicas.
Em quantos cursos as pessoas se matriculam sonhando em encontrar mais “dicas”, mais formas, mais modelos, mais instruções sobre uma possivel e idealizada maneira de fazer bem, alguma coisa?
No que nos diz respeito, esta alguma coisa seria a prática do coaching.Fico me perguntando o que há ai nessa busca. O que move tais pessoas nesse aparente vazio de entendimento? O que será que não se satisfaz ai nessa procura constante? O que será que se faz ouvir de verdade, nessa pergunta como?
Esta questão sempre me causou certa curiosidade. Não que sempre estivesse estado fora dela, ao contrário, geralmente estava também eu afundada nas mesmas ansiedades. Mas como gosto de espistemologia, me embrenhei no campo do entendimento de com o se dá o entendimento e assim, amenizei um pouco esta ansiedade, quando me deparei com certa posição de um filósofo francês chamado Georges Canguilhem (Conferência ministrada no Collège Philosophique em 18/12/1956). Diz ele que o método determina o objeto e não o contrário, como em geral defendem os filósofos e cientistas sociais. Ora, me parece sensato pensar que se eu possuo uma lupa como instrumento para observar uma realidade, só possa encontrar micro objetos ou micro sistemas, a depender da potencia do instrumento. Entretanto se tenho um telescópio, outro objeto me aparecerá, mesmo que eu não pretenda.
Foi dessa forma que concluí ser de suma importância o método de fato, pois ele determina o objeto, seus contornos e limites. Trazendo um exemplo mais ao nosso mundo: se usarmos a livre-associação de Freud, encontraremos fatalmente os atos falhos, e com eles o inconsciente, mas se usarmos os reforços positivos e negativos de Skinner, encontraremos o ego ou na melhor das hipóteses o super-ego. E, ainda, se observarmos os sonhos, as mandalas, as imagens míticas, poderemos encontrar o inconsciente coletivo e os arquétipos.
No nosso caso como coaches, se usarmos a maiêutica socrática, encontraremos um sujeito inteiro, capaz de pensamento e criação porém, se usarmos o nosso conhecimento teórico, em forma de saber universitário, encontraremos um sujeito parcial capaz de submissão e reprodução.
Tendo comprendido então, que o método é de fato essencial, pensei a partir daí, que provavelmente estávamos em busca do nosso melhor método. Aquele que melhor combinaria com nosso jeito de ser. Esta resposta novamente apazigou um pouco a interpretação para a incessante procura por métodos que percebia em torno de mim, essa sede que nunca se esgota, em alguns profissionais, que concluem uma formação e já estão querendo conhecer outra..
Mas logo me lembrei de uma clássica definição das concepções humanísticas da psicologia, que se contrapunham as materialistas: Entre o Estímulo e a Resposta existe um Organismo, ou seja, um sujeito. Ato seguinte minhas sinapses teimosamente articularam: entre Teoria e Método existe um Sujeito. Ou também, entre Método e Objeto existe um Intérprete.
Foi então que comecei a entender que me parece que a resposta está na direção de um caminho muito mais complexo e delicado, que deve acontecer lado-a-lado com a descoberta e a competência do uso de um método. Trata-se da competência do sujeito coach. O desenvolvimento da pessoa do coach. De nada adianta um bom método nas mãos de uma pessoa que não se sente um ser humano integral, capaz de entregar-se em cada relação, permanecendo mesmo assim, completamente centrado em si mesmo.
Nos diz Jung (Jung K.G e Wilhelm R. – O Segredo da flor de ouro. Petrópolis: Vozes 1990, p 25) citando um provérbio chinês: ”Se o homem errado usar o meio correto, o meio correto atuará de modo errado.” Ou seja, a busca por um método correto não garante a prática perfeita, mesmo que a ciência ocidental, a nossa concepção de método cientifico, afirma que o uso do método adequado garante o encontro da verdade. Prossegue Jung: “...tudo depende do homem e pouco ou nada do método, este último indica apenas a direção e o caminho escolhidos por um indivíduo”. E vai Jung ainda mais longe, afirma que talvez o homem ocidental tenha criado o método (científico) para tentar dormir em paz com sua consciência, sem entratanto, caminhar antes por entre suas próprias sombras. Em outras palavras, um método serviria para auto-engano, a ilusão de garantir o que somente ele mesmo e sua caminhada em direção a si mesmo, pode garantir. “... poderia representar um meio de o individuo iludir-se consigo mesmo, fugindo talvez à lei implacável do próprio ser.”
Um ser humano inteiro, que já se assumiu como indivíduo verdadeiramente, no mundo, que se sustenta sobre seus próprios pés, se pergunta mais sobre a acompetência de seu ser, do que sobre a qualidade do método que escolheu ou utiliza.
Talvez seja bom terminar por aqui e deixar que os leitores completem, respondam questionem, se posicionem em relação ao tema, para alimentar mais, o livre debate sobre a arte de ser coach.